''Os grandes fazendeiros não têm problemas para renegociar dívidas. Falam diretamente com o gerente e têm garantias para apresentar aos bancos. Já os pequenos produtores, quando não conseguem pagar suas contas, são postos na cadeia''. A afirmação, revoltada, é do agricultor de Guaravera (Zona Sul de Londrina) Junior Carlos Domingues Burgatti. Como a maioria dos produtores paranaenses, ele perdeu grande parte de sua produção com a estiagem que assolou o Estado no início do ano. Sem dinheiro para reinvestir na lavoura, o agricultor mal consegue sobreviver. E poderá perder sua terra se não saldar as dívidas.
A situação de Burgatti é semelhante a de outros 42 agricultores que dividem com ele as terras da Fazenda Acolá, em Guaravera. Em 2001, quatro grupos de produtores de Londrina e dois grupos do Distrito de Lerroville (zona Sul) se uniram em uma associação para a aquisição dos 200 alqueires da propriedade por meio de incentivos pelo extinto Banco da Terra, hoje, substituído pelo Programa Nacional de Crédito Fundiário, do Ministério do Desenvolvimento Agrário. O grupo teve três anos de carência para iniciar a quitação das terras. Em 2004, venceu a primeira das 17 parcelas do financiamento, mas a associação ainda não efetuou o pagamento.
Segundo Eloir Soares dos Santos, presidente da Associação de Produtores Rurais da Fazenda Acolá, das 42 famílias assentadas, apenas cinco não conseguiram obter os cerca de R$ 3 mil destinados ao pagamento da primeira parcela da dívida. ''Mas mesmo que o restante pague, todos serão considerados inadimplentes pelo banco'', ressalta.
Santos explica que o contrato de compra das terras foi feito em regime de aval solidário. Neste caso, todos são donos da propriedade, que terá uma única escritura em nome da associação. Cada família recebeu R$ 40 mil para comprar 3,15 alqueires, onde cultivam basicamente batata doce, mandioca, cará, milho, verduras e legumes.
Nilson Ladeia Carvalho, secretário da Agricultura de Londrina, conta que na época da implantação, o projeto do assentamento recebeu um laudo do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), o qual atestava as boas condições da terra para o plantio do café. Naquele momento, cerca de 30 produtores investiram na cultura, mas tiveram prejuízo já na primeira colheita. ''Infelizmente, a geada de 2002 dizimou toda a lavoura e os produtores precisaram repensar os investimentos'', afirma.
Para Ladeia, a frustração com o café foi o principal motivo para que os agricultores atrasassem o pagamento da primeira parcela de compra das terras. ''Os produtores que investiram naquilo que já sabiam fazer e possuíam uma estrutura mínima de produção conseguiram economizar os R$ 3 mil nestes três anos'', analisa.
Considerados inadimplentes pelo banco, muitos produtores não conseguiram obter crédito para o custeio da próxima safra. É o caso de Eloir Santos, que depois do fracasso do café, partiu para o cultivo de soja e milho. Com mais uma frustação, Santos conseguiu pagar apenas as pequenas contas. ''Não sobrou nada para o plantio de inverno e a terra ficará descoberta até que a situação se resolva'', lamenta.
Ele procurou o Banco do Brasil para tentar renegociar a dívida da fazenda, mas obteve resposta negativa. ''Eles disseram que só poderiam tomar uma providência com o aval do Programa Nacional de Crédito Fundiário'', assinala. De acordo com o presidente, a associação preparou um abaixo-assinado pedindo a prorrogação da dívida em mais parcelas e com valores menores. O documento foi enviado a Curitiba há três meses, mas os produtores ainda não receberam resposta.

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