Chuva prejudica e ajuda
Mario CesarValdevino Pontes colhe cerca de seis arrobas por dia e recebe R$0,80 por arrobaAs chuvas de fevereiro prejudicaram o tipo e a produtividade dos algodoais, dando prejuízo ao lavrador, mas socorrendo o bóia-fria em momento de baixa oferta de trabalho. No município de Jaguapitã, Norte do Paraná, as chuvas desestimularam os produtores que pretendiam experimentar a colheita mecânica, e o bóia-fria foi beneficiado: a produção esperada não justificaria o uso de máquinas. Foi preciso catar na mão.
Valdevino Pontes, 40 anos, colhe cerca de seis arrobas por dia, em um algodoal que perdeu produtividade. Recebe R$0,80 a arroba. Se trabalhasse um mês seguido, sem faltar um dia, ganharia no final R$144,00. Porém, ele calcula que no município só tem algodão por uns 15 dias. Como outros bóias-frias da região, Valdevino mora no município de Prado Ferreira, perto de Jaguapitã. Sai para a roça às 6 horas, mas hoje tem uma vantagem: viaja de ônibus, mais seguro do que na carroceria de um caminhão.
O que mata o trabalhador é a máquina, afirma o apanhador de algodão. Ele lembra, para reforçar sua opinião, que existem máquinas para colher algodão, cana e café - as culturas que mais empregam mão-de-obra -, além das conhecidas colhedoras de soja, trigo e milho.
Carolino Pequeno Alves, cotonicultor de Jaguapitã, pretendia colher com máquina alugada, mas a quebra da produtividade e da qualidade em consequência das chuvas não compensaria o aluguel do equipamento (R$0,95 a arroba), que colhe duas mil arrobas por dia e tira um algodão mais limpo, tipo 6 (básico, melhor preço), enquanto o bóia-fria colhe com mais impurezas e o produto catado alcança tipo pior, de preço mais baixo.
O município de Jaguapitã tem nesta safra 150 ha de algodão. A engenheira-agrônoma Cristina Célia Krawulski, do escritório local da Emater, lembra que a área já foi 20 vezes maior. As causas da redução foram as mesmas que atingiram toda a cotonicultura brasileira a partir de 1994: o Plano Real congelou os preços agrícolas, enquanto os financiamentos eram reajustados em 30%. Quebradeira geral na agricultura e na cotonicultura em especial, porque também era liberada a importação de algodão.
A grande maioria dos cotonicultores pagava arrendamento das terras. O alto custo financeiro da atividade agrícola, o arrendamento e as importações fizeram os arrendatários desistir da produção. Neste ano, quando o algodão estava voltando, e devido à redução anterior de área e escassez de produto, produtores esperavam vender a R$10,00-R$12,00 a arroba. Mas o mercado não tem preço, analisa a agrônoma.(Jota Oliveira)





