Chuva ameaça a produção de verão
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de janeiro de 1997
Silvana Leão 
Sob a chuvaDe guarda-chuva em punho, produtor abre vala para escoamento da água em lavoura de soja durante a semana, em Londrina
Uma frente fria que se formou no Uruguai e atingiu o Paraná no início desta semana trouxe muita chuva e preocupação para os produtores rurais, que estão sujeitos a quedas na produtividade do milho, da soja e do feijão, caso as precipitações persistam nos próximos dias. O aparecimento de doenças, favorecidas pelo ambiente úmido, e a queda na qualidade dos grãos estão entre os principais problemas.
No caso da soja, o excesso de chuva somado ao clima ameno que tem caracterizado este verão vai, certamente, aumentar a incidência da doença chamada de podridão branca da haste, além de outras como o míldio, oídio e podridão de carvão. Sem dúvida, este é um ano atípico, afirma o pesquisador Léo Pires Ferreira, da área de Fitopatologia da Embrapa/Soja, em Londrina.
Ferreira lembra que as condições registradas até agora também aumentam as chances do ataque mais intenso das doenças de final de ciclo da cultura. As duas mais preocupantes são a mancha-parda e o crestamento foliar, que podem antecipar a desfolha em até 25 dias, diminuindo o enchimento dos grãos e, consequentemente, a produtividade.
O pesquisador da Embrapa faz questão de observar, porém, que os maiores prejuízos serão registrados nas áreas que já apresentavam algum tipo de problema. Nos solos compactados, por exemplo, a água acumulada na superfície impede o processo de troca de ar pela raiz, sufocando a planta. Por outro lado, o produtor cuidadoso, que segue todas as recomendações, pode até ser beneficiado pelas chuvas, diz.
À espera de solProdutores de milho que semearam suas lavouras no final de agosto e início de setembro já têm motivos para começar a se preocupar com as chuvas. Praticamente em fase de colheita, estas áreas correm o risco de apresentar maior porcentagem de grãos ardidos e quebramento de planta, ocasionando grandes perdas na colheita mecânica. Na região de Londrina, alguns produtores aguardavam, durante a semana, pelo menos um dia de sol, para cortar o milho destinado à silagem.
Em três dias
o índice de chuva
foi maior que a
média do mês
Segundo o pesquisador Antonio Carlos Gerage, da Área de Milho do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), a maioria das lavouras do Norte do Estado está na fase de enchimento dos grãos. E também nestas a continuação das chuvas é motivo para preocupação. Nesta fase, a fotossíntese é essencial para uma boa produção. Com a falta de sol, o processo pode acabar sendo comprometido.
Nem as áreas semeadas tardiamente escapam dos riscos. Chuva em excesso em plantas que estão em fase de florescimento pode prejudicar a polinização e, com isso, a granação das espigas, lembra Gerage. Na última quarta-feira o pesquisador observava, porém, que ainda não existiam dados concretos de prejuízos no campo.
No Sul do Estado os maiores prejuízos causados pela chuva são no feijão, que pode começar a germinar antes de ser colhido, comprometendo o valor comercial do produto. Na região de Castro foram colhidos apenas 5% do feijão plantado, e a colheita teve que ser suspensa durante a semana, por causa das constantes precipitações.
Warren NabucoEspigas encharcadas pelas chuvas ininterruptas: falta de sol compromete a boa formação dos grãos
Média superiorAs chuvas ininterruptas da última semana concentraram em poucos dias um índice pluviométrico maior que o registrado durante todo o mês em anos anteriores, em Londrina. Enquanto a média de janeiro, nos últimos anos, foi de 195 milímetros, só de segunda até quarta-feira choveu 197 milímetros (mm), segundo dados do setor de Meteorologia do Iapar. De acordo com o Núcleo Regional da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, o índice registrado desde o começo do mês até a última quinta-feira chegou a 306 mm. No ano passado, durante todo o mês de janeiro, choveu 209,7 mm em Londrina.
Embora as chuvas de janeiro estejam sendo mais concentradas, o mês de dezembro foi o campeão em precipitações, na região. Só em Centenário do Sul, por exemplo, choveu 525 mm. Em Lupionópolis, 512 mm, e em Rolândia, 405 mm. Em Londrina, o índice registrado no mês passado foi de 405 mm.


