A era de um gigante global insaciável no agronegócio global parece estar com os dias contados. Muitos dias, é verdade, mas dada a efetividade do que é planejado e cumprido pelo Partido Comunista da China, vai ser cada vez mais difícil embarcar grãos e proteínas para alimentar uma população bilionária e com renda per capita cada vez mais alta, os dois ativos que fizeram o agronegócio brasileiro apostar todas as fichas naquele país.

A agremiação política que controla os planos e as metas do país que mais importa alimentos no mundo já vai trabalhar duro para a busca por auto suficiência no consumo de grãos e carnes na próxima década.

O desejo de ter mais segurança alimentar já não era uma novidade para quem acompanha a política interna chinesa, mas em um mundo instável - marcado por guerras, bloqueios e de insubordinações em acordos e tratados - o que foi claramente expresso no 15º Plano Quinquenal, documento estratégico aprovado pelo Comitê Central em outubro, e aprovado pela Assembleia Nacional Popular sob a denominação de Lei de Planejamento do Desenvolvimento Nacional em março, é que o tema se tornou a prioridade das prioridades para a próxima década.

Desde então, uma luz amarela acendeu nas regiões produtoras do Brasil, um país considerado estratégico para o abastecimento chinês.

O Moegão, que centraliza a descarga de grãos, é um exemplo do investimento em infraestrutura importante para modernização do Porto de Paranaguá
O Moegão, que centraliza a descarga de grãos, é um exemplo do investimento em infraestrutura importante para modernização do Porto de Paranaguá | Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná

A pergunta que causa apreensão no empresariado é o quanto este esforço de autossuficiência pode abalar a relação que mudou o patamar do agronegócio brasileiro ao longo do século 21?

Estados agrícolas exportadores como, por exemplo, o Mato Grosso, que fatura alto com a venda de soja (70% da produção) e de carne bovina (50% da produção), são os mais ameaçados pela disposição chinesa de produzir o máximo possível de alimentos dentro das suas fronteiras.

O Paraná deu um salto nas exportações agropecuárias para a China no decênio 2016-2025, saindo de US$ 2,5 bilhões para US$ 5,2 bilhões, um incremento de mais de 100%. O número impressiona, mas é aquém do incremento nacional, que passou dos 200% no período, com o montante de US$ 20 bilhões passando para mais de US$ 60 bilhões neste intervalo.

Entre janeiro e março deste ano, a China importou US$ 176 milhões em carne de frango produzida no Paraná e figura no topo entre os importadores. O exemplo do protagonismo deste setor na economia do Estado é a transformação da estrutura portuária para dar conta desta grande demanda. Os portos paranaenses foram responsáveis pela movimentação de 47,6% de toda a carne de frango exportada pelo Brasil em janeiro de 2026, de acordo com informações da Agência Estadual de Notícias, tornando-se o maior corredor de exportação do produto no mundo. Ao longo de 2025, somente o Porto de Paranaguá exportou mais de 2,8 milhões de toneladas de frango congelado. O TCP (Terminal de Contêineres de Paranaguá) possui o maior parque de armazenagem de contêineres refrigerados da América do Sul, com 5.268 tomadas.

Imagem ilustrativa da imagem China mais contida preocupa agro paranaense
| Foto: Joa_Souza/getty images

“Ficar esperando e aguardando se isso realmente vai acontecer, não é a melhor opção”, afirma o estudioso em política agrícola e economia rural Eugenio Stefanelo, professor do Centro de Ciências Agrárias da UFPR (Universidade Federal do Paraná), ex-secretário estadual da Agricultura e ex-presidente da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). “O que os chineses se propõem a fazer, eles fazem. Sem dúvida, eles vão atingir gradualmente esta autossuficiência. É uma questão de tempo. O mínimo que devemos fazer é buscar novos mercados em países populosos com renda ascendente na Ásia, no Oriente Médio e na África”, sugere.

As fontes ouvidas pela FOLHA convergem para uma visão cautelosa sobre o impacto deste movimento chinês para a economia paranaense, mais industrializada e com infraestrutura mais desenvolvida. Para estes especialistas, há tempo de adaptação suficiente para lidar com a queda gradual do apetite do melhor parceiro, mas as recomendações de agregar valor aos produtos e de diversificar os destinos de embarque, uma receita não exatamente nova, se tornam cada vez mais urgentes nas estratégias a médio prazo.

Anderson Sartorelli, do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep, lembra que o esforço chinês já conseguiu atingir a autossuficiência em arroz, trigo e milho. “Eles estão nesta busca e precisam manter a produção acima das 700 milhões de toneladas por ano. Mas eles ainda precisam de grandes parceiros estratégicos para fornecer proteína, cujo consumo tem crescido aceleradamente. O Brasil e os Estados Unidos são estes dois grandes fornecedores e, por tudo o que está acontecendo no mundo, nós nos colocamos como o mais confiável neste momento. E isso não vai mudar a curto prazo. Porém, precisamos ficar atentos a um ponto que é o seguinte: como maior importador global, qualquer ajuste na política interna deles gera um impacto nos preços globais dos alimentos, inclusive na soja”, frisa o especialista.

Os chineses produzem apenas 20% da soja que consomem, mas têm planos muito claros para enfrentar a dependência destes dois países na nutrição dos seus rebanhos.

Os asiáticos já sinalizaram que pretendem diversificar o número de países fornecedores e de ampliar a produção da oleaginosa a partir de várias frentes, como a edição genética para a criação de supersementes, a utilização de solos alcalinos e salinizados hoje abandonados e a ampliação da área agricultável em regiões áridas com sistemas mais sustentáveis de irrigação. Também está prevista a redução do farelo de soja na mistura que compõe a ração dos frangos para apenas 10%, um terço da atual. O plano quinquenal também indica investimento pesado em biologia sintética para a produção de proteína alternativa. Algumas estimativas apontam que todo este esforço pode reduzir o volume de soja importado em um quarto do atual.

“Mais de 80% do que o Paraná exporta para a China é do complexo soja, grão, farelo e óleo e 9% é de carne”, lembra Marcelo Garrido, chefe do Departamento de Economia Rural da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento, complementando que 29% do total exportado pelo Estado teve como destino a China. “Obviamente que tudo isso é preocupante a longo prazo.”

“Mas esta mudança chinesa, não é um desastre total para o nosso agronegócio. Continuaremos competitivos por muito tempo, somos bem avaliados pelo mundo. O que temos que fazer é continuar a melhorar nossos produtos, aumentar o valor do que vendemos através de inovação e tecnologia, abrir novos mercados”, comenta Stefanelo.

Previsões sob risco

É importante lembrar que o conteúdo do Plano Quinquenal oficializado em março não é exatamente algo tão surpreendente para quem estuda a China, apesar dos analistas sentirem que desta vez a mensagem é mais enfática. Em um artigo publicado em julho de 2024 pelos economistas Leandro Gilio e Pâmela Borges, pesquisadores do Centro de Agronegócio Global do Insper, intitulado “China: Segurança Alimentar e Crescimento da Demanda por Alimentos”, já com a política de autossuficiência alimentar chinesa em curso, a questão das proteínas já é mencionada. “Para a China, importar produtos alimentares é uma forma de poupar recursos (terra e água, em especial). Estrategicamente, no entanto, são eleitos pelo poder central chinês os produtos que o país será autossuficiente na produção e outros que o país importará, de acordo com o interesse estratégico do país. Dentre os produtos que têm prioridade na autossuficiência de produção temos as carnes de frango e de porco e os grãos trigo e arroz”, diz um trecho do artigo. Já outra previsão parece ter ficado um pouco mais incerta, com o tabuleiro da geopolítica em constante movimentação. “Para os próximos 10 anos, embora o país passe por um processo de desaceleração no crescimento do PIB, o crescimento da população, da renda e da urbanização devem continuar puxando a demanda por commodities alimentares”, vaticinava.

Imagem ilustrativa da imagem China mais contida preocupa agro paranaense
| Foto: .

Impacto na cadeia

”Nós nunca exportamos tanto, mas também nunca dependemos tanto de um único comprador. O Brasil responde por 25% de tudo que a China importa do agronegócio global, e só de soja, a China absorve cerca de 71% das nossas exportações do grão. Qualquer movimento desse comprador impacta diretamente na precificação dessa commodity, e consequentemente, nas margens do produtor”, lembra José Vitor Hidalgo, especialista em commodities agrícolas. “Outro ponto interessante para falar é que a China está envelhecendo e encolhendo. Uma população mais velha e uma economia desacelerando significam uma demanda menor por grãos, incluindo toda a cadeia de produção, suínos e aves, por exemplo. Se a demanda chinesa recuar de forma expressiva, o impacto seria em cadeia, começando com a queda nos preços globais das commodities, passando pela pressão sobre o câmbio e sobre o crédito”, explica. “Encontrar outro comprador como a China é muito difícil, mas a opção é diversificar. Outra saída para o Brasil seria a verticalização, aumentando a exportação do produto processado e não somente da matéria-prima, alcançando mercados novos e se aproximando de outros parceiros comerciais para ampliar o share”, analisa.

mockup