Cheiro de armazém
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de fevereiro de 2020
null 

Lembro de quando eu ia comprar alguma coisa no armazém da esquina. Era criança e gostava de de ir lá porque sempre comprava um ou outro doce com o troco. O que mais me chamava a atenção neste tipo de estabelecimento comercial era o cheiro de coisas misturadas. Uma verdadeira fragrância que aguçava o nariz. Parecia um misto quase inexplicável de ervas, alimentos, artigos de limpeza e sei mais lá o quê. Tinha de quase tudo naquele lugar. O óleo era vendido a granel e a gente tinha que levar um litro vazio pra comprar .O óleo era bombeado por uma geringonça que tinha um cabo que era movimentado e dalí saía por um cano estreito e longo. Parecia uma daquelas antigas bombas de tirar água de poço.
Os cereais eram vendidos a granel também.Tinha uma concha de metal que era meio pontuda enfiada lá no meio do latão cheio de arroz, feijão, milho ou quirera .Normalmente o barril era de metal cortado ao meio .As linguiças secas ficavam penduradas em algumas armações no alto onde também ficavam os toucinhos defumados.
No canto do balcão de vidro havia uns doces, pipocas de saquinhos com bexiga e um baleiro de vidro que rodava e tinha um monte de divisões com tampa. Era bala azedinha, toffe e umas redondinhas de açúcar que faziam a alegria da criançada que ia com os pais fazer a compra do mês. Refrigerante não era sempre. Só em dia de festa. As tampinhas de alguns tinham uma cortiça por dentro. Lembro do guaraná Londrina, o mais gostoso que já tomei. Ninguém mais faz um guaraná como aquele.
Os ovos eram vendidos a granel também e colocados em um saquinho de papel, sacola de plástico ainda não existia, e dentro era colocado pó de serra entre eles para não quebrarem.
Em dias de chuva, além de ter uma enxada virada ao contrário bem na entrada do armazém para limpar os pés de barro, também era jogado pó de serra para não enlamear e nem escorregar.
Engraçado era quando chegava na porta do armazém com chinelo de dedo e ao passar o pé ali quebrava e saía a tira dele que já estava fina de tanto usar. Quando chovia muito, até chegar lá, as batatas das pernas já estavam todas respingadas de barro de tanto corre. Naquela época, as crianças corriam a toda hora e os chinelos estalavam de tanto barro. Isso quando não grudava no chão e o chinelo ficava pra trás.
Uma vez comprei ovos e quando meu pai colocou na geladeira havia treze no saquinho, o vendeiro havia contado errado. Meu pai me mandou voltar e devolver o ovo que tinha a mais. E corria de novo na chuva, nem pegava guarda-chuva pra não demorar.
Parece que quando se é criança tudo é mais gostos. Os sabores e cheiros são uma espécie de nostalgia que acalenta lembranças que nos trazem um bem-estar. O cheiro dos pães que eram vendidos em carrinhos de tração animal nas ruas era especial. Quando o padeiro abria o baú do carrinho saía um cheiro de doce que acredito, muita gente não esquece.
Comprava-se muita coisa na rua. Até leite era entregue em litro de vidro. Não tinha tanta padaria e supermercado como hoje. Fazia-se uma boa compra do mês e comprava-se com o dinheiro do salário no início do mês.Muita gente comprava fiado,fazia conta e pagava certinho, não havia cartão de crédito, cheque era mais difícil, só pra quem tinha conta em banco, que era um certo luxo.
Costumes antigos de uma época em que os muros na frente das casas eram baixo, as cercas eram de balaustra e os vizinhos se conversavam.
E de vez em quando sinto uma ponta de saudade de tudo isso.
Dailton Martins, leitor da FOLHA.


