Chalana

Vai chalana vai, sangra as águas desse teu rio, assim como sangras agora minh'alma e o meu coração.
Vai chalana vai, eu não sabia que tu serias capaz de ser tão fria, cruel e rebelde, que serias capaz de destruir almas e corações de quem vive tão apaixonado.
Hoje, me mostras que não tens nenhuma consideração, por quem só soube te admirar, valorizar e te querer bem.
Como te atreves agora, arrancar de mim aquela que mais amo?
Que mal te fiz eu, para me dar em troca esta moeda? Se bem me lembro, só te elogiei, zelei por ti e te defendi dos predadores que rondam estas plagas: tua beleza e conservação, sempre foi uma das minhas preocupações.
Perdi a conta de quantas viagens e passeios fizemos juntos por estas águas calmas, tranquilas e serenas; sei que tu já não te lembra mais também.
Por que agora esse ódio, esse rancor para com esse pobre pescador. Por que me causas neste momento, a pior de todas as chagas; essa ferida que se chama saudade?
Eu não queria maltratá-la, ofendê-la, chamá-la de má, cruel e desumana.
Eu só queria sentir por ti simpatia e admiração, e que nossa amizade, perdurasse por toda nossa existência.
Agora chalana, que anuncias sua partida, repare como estes meus olhos tristes derramam sobre essas águas lágrimas de sangue; manchando e turvando estas águas límpidas e cristalinas; revelando que algo de muito ruim e pesaroso há em tua volta.
Eu não queria belíssima chalana te provocar este pesadelo e pôr em pânico toda tua tripulação; pôr em choque o teu almirante que, tão sabiamente, conduz o teu leme, muito menos a ela, ela que é a dona de todo meu ser, minh'alma e inspiração.
Eu sei, que fazes junto a este rio caudaloso, a mais bela tela de nossa existência: criada pelo nosso Divino Mestre; Picasso, Monet, Van Gogh, ou Michelangelo não se atreveriam imitá-la, tamanha sua grandeza, beleza e esplendor.
Vai chalana vai, destrói todos os meus sonhos e esperanças.
Tenho tanto ódio e tanta raiva de ti, que se eu pudesse, te faria em mil pedaços, depois uma fogueira e tuas cinzas, enterraria num poço profundo e faria com que todos se esquecessem de ti.
Essa mulher, essa passageira, que estás levando, está deixando partido o meu coração: quantas e quantas promessas de amor eu ouvi dos lábios dela: e agora, sem motivo plausível, me diz adeus e me pede para esquecê-la para sempre.
Quando voltares chalana, aqui estarei, não esperando por ti ou por ela, aqui estarei só, curtindo a mais negra solidão, não serás capaz de convencê-la a sair de mim e levá-la para onde quer que seja.
Vai chalana vai, vai riscando o rio manso do Rio do Paraguai!
João Caldeirão, leitor da FOLHA





