Cevada em clima tropical
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sexta-feira, 21 de outubro de 2005
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
O mercado está precisando de cevada. A produção nacional, no momento, atende apenas 30% da demanda. Embora as áreas mais indicadas para a cultura estejam no Sul do País, os técnicos admitem o bom desempenho em outros tipos de clima e solo. No Paraná, Guarapuava responde por mais de 80% da produção, mas as áreas mais quentes também estão aptas ao cultivo, que deve ser feito em terrenos mais altos. No Centro-Oeste do Brasil, a produção ocupa 1,5 mil hectares, só que o cultivo é irrigado.
Quinto grão em ordem de importância econômica e social do mundo, a cevada é a matéria-prima fundamental das indústrias de bebidas, com destaque para cervejas e destilados. Além de compor a formulação de farinhas para panificação, produtos dietéticos e medicamentos, também pode ser consumida na forma de café. O cereal é ainda empregado na alimentação animal, como forragem, e na fabricação de rações, que constitui seu principal uso em escala mundial 68% da produção.
No Brasil, diferentemente dos demais países, a malteação tem sido a principal aplicação econômica da cevada, pois o milho é a opção mais vantajosa para a alimentação animal. A estimativa da Embrapa Trigo, de Passo Fundo (RS), é de que aproximadamente 85% da cevada brasileira é utilizada na industrialização de malte, 7% é reservada para semente e 8% é usada na elaboração de rações, quando não atingem padrão de qualidade cervejeira.
Segundo o pesquisador da Embrapa Trigo Euclydes Minella, o consumo anual de malte pela indústria cervejeira nacional é de cerca de um milhão de toneladas (t), sendo que mais de 20% desta demanda é suprida pela importação de malte argentino e uruguaio.
A produção brasileira está concentrada na Região Sul, com registros de cultivo também nos estados de Goiás, Distrito Federal e Minas Gerais. Atualmente, são cultivados 135 mil hectares (ha), com uma produção próxima a 390 mil toneladas (t), processadas por três maltarias instaladas em Porto Alegre (RS), Entre Rios (PR) e Taubaté (SP).
O Rio Grande do Sul lidera a produção com 75 mil ha e uma produtividade média de 2,3 mil quilos (kg)/ha. O Paraná segue em segundo lugar, com uma área de 60 mil ha e produtividade de 2,5 mil kg/ha. As demais regiões produtoras ocupam 1,5 mil ha, com destaque para as lavouras irrigadas da chapada goiana.
Minella explica que para a produção do malte, os grãos da cevada devem ser graúdos e uniformes. Para obter o melhor enchimento dos grãos, a planta precisa ser cultivada em regiões com altitude superior a 600 metros, onde as primaveras são amenas, com temperatura média de 18 graus celsius e muita luz. O solo deve ser fértil e corrigido contra acidez.
No Paraná, mais de 80% das lavouras concentram-se na região de Guarapuava, onde o frio garante a qualidade cervejeira. Nas demais áreas do Estado, principalmente na região Norte, onde o clima é mais quente, a cevada precisa ser cultivada em terrenos mais altos e com o uso de irrigação. ''Como a irrigação é muito cara, os produtores preferem o trigo'', explica Minella.
O manejo não é diferente de outras culturas invernais, ressalta o pesquisador. O plantio tem início em meados de junho e a colheita ocorre em novembro. A terra deve ser adubada antes do plantio e a lavoura deve receber uma cobertura de nitrogênio pelo menos duas vezes durante o ciclo. ''O monitoramento constante garante proteção contra doenças'', assinala Euclydes Minella.
Segundo ele, as variedades existentes são bastante adaptadas ao oídio, ferrugem da folha e mancha reticular, principais doenças que atacam a cultura. Ela assinala que das cultivares utilizadas no Brasil, 70% são produzidas pela Embrapa. ''No Paraná, esta taxa sobe para 90%'', afirma.
Para Minella, a cevada está consolidada como uma alternativa de renda na safra de inverno, capaz de oferecer melhor estabilidade no fluxo de caixa devido a liquidez de mercado. ''A produção sai da lavoura contratada, ou seja, a venda é acertada antes do plantio e o pagamento da indústria é à vista''.


