Milton DóriaComplexidadeO pesquisador Décio Gazzoni analisa uma parte dos inúmeros fatores que influenciam na economia agrícola‘‘O mundo todo ainda vive momentos de turbulência para se adaptar às novas leis da economia que surgiram com a abertura dos mercados. Não se trata mais de discutir se ela é boa ou ruim, mas sim como se adequar pois a questão é um fato inevitável’’. A afirmação é do pesquisador da Embrapa, Décio Gazzoni, que é Consultor do Ministério da Agricultura e do Abastecimento, Consultor da Universidade Latino-Americana e do Caribe e Consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Segundo o pesquisador, que acompanha de perto as políticas internacionais, o cenário mundial muda com muita rapidez e o empresário rural precisa estar acompanhando estas transformações. Em que o produtor do Brasil poderia ser afetado pelas eleições na Inglaterra ou na França? Segundo o pesquisador tem muita coisa a ver, porque as relações comerciais e consequentemente os preços vão depender destas definições políticas. ‘‘Tanto na Europa como nos Estados Unidos, a agricultura sempre foi altamente subsidiada, e agora se questiona se vale a pena continuar subsidiando em 50% a 60% destes custos, em detrimento de outras necessidades, que se apresentam mais urgentes’’, analisa Décio.
SubsídiosDesde o Tratado de Marrakech, quando os 140 países participantes decidiram pelo fim do subsídio, mantendo o estímulo apenas para a agricultura de subsistência, um novo cenário vem se formando na atividade agrícola. ‘‘Se este acordo for cumprido, o agricultor brasileiro se beneficiará, pois nossa atividade ficaria com mais condições de competir’’, comenta.
Mas o grande risco, ou ameaça à internacionalização do comércio, também chamada globalização, seria o não cumprimento deste acordo, na opinião do pesquisador. Tudo vai depender agora de como as corporações européias vão negociar estas questões. ‘‘Estas decisões podem detonar a Organização Mundial do Comércio (OMC). É por estas e outras questões que é tão importante estarmos atentos a todas as informações externas’’, alerta Décio.
A França é o grande país agrícola da Europa, seguida da Alemanha, mas estes países não têm uma produção de escala, e esta é a grande restrição deles para competir. Para se ter uma ideía, o módulo médio na França varia de um hectare (ha) a um hectare e meio. Segundo o pesquisador a maior propriedade agrícola no Japão tem 24 ha e só se mantém porque o Governo paga 4 a 5 vezes em subsídio o custo do produto.
A presença forte desses subsídios na Europa é uma questão cultural, porque a maioria dos países já sofreram racionamento de alimentos, e até agora tem sido mais fácil manter o agricultor na sua terra do que trazê-lo para a cidade.
‘‘No Brasil há 15 anos os subsídios vêm sendo retirados, por absoluta falta de dinheiro, e grande parte dos produtores já se ajustou a esta nova realidade’’, diz Décio.
BarreirasDécio Gazzoni acredita que nesta nova ordem mundial o Brasil tem grandes oportunidades, principalmente no segmento agrícola. E precisa, agilmente, se preparar para enfrentar o novo desafio.
Todas as barreiras comerciais foram derrubadas, com exceção de uma que permanece para qualquer país que pretende exportar: sanidade. ‘‘Esta questão é extremamente séria, e se o Brasil quiser abrir as portas para o mercado exterior terá que se adequar rapidamente’’, destaca.
Sanidade deve ser encarada como patrimônio nacional, diz Décio. E neste ponto é fundamental o investimento em tecnologias. O Governo do Paraná, por exemplo, precisa entender que a manutenção do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), é a garantia da produção de novas tecnologias.
Falando em tecnologia e sanidade, o pesquisador lembra que isto só é possível com investimentos, recursos. ‘‘E não adianta o produtor ficar esperando alguma coisa do Governo Federal. Não existem recursos. É preciso criar condições para buscar alternativas na iniciativa privada nacional e internacional, e também junto aos grandes bancos com fins sociais como o BIRD,’’ comenta.
O Brasil é um país que oferece inúmeras oportunidades de investimentos, mas para atrair capital estrangeiro o País precisa de estabilidade econômica e política.
‘‘O momento atual ainda é de ajustes, e o Brasil tem três saídas: fechar sua economia com o retorno de medidas protecionistas; ser passivo e ficar esperando as coisas acontecerem; ou encarar o desafio de frente e buscar soluções’’, finaliza Décio.

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