Cenário aponta uma agricultura sem resíduos
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sexta-feira, 23 de maio de 2003
Célia Guerra<br>Reportagem Local 
''O produtor precisa identificar melhor o que o mercado quer, e as suas possibilidades de atender a essa demanda. Não deve pensar a produção agrícola só pelo que aponta o mercado de commodities''. A afirmação é do economista Joe Morris, da Universidade de Cranfield (Inglaterra), que esteve em Londrina na semana passada, apresentando o seminário ''O futuro da produção de alimentos e os desafios para a pesquisa e a formulação de políticas públicas'', que se realizou no Centro de Difusão de Tecnologias do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).
Morris disse que já existe uma redução do protecionismo agrícola no mercado europeu, que não oferece mais a garantia de preço e sim mecanismos de manutenção do agricultor na propriedade. Para ele, esse cenário promoverá uma estabilização dos preços no mercado interno dos produtos agrícolas seguido de uma recuperação do valor das commodities no mercado internacional. Apesar disso, há, segundo o economista, um outro movimento pela produção de alimentos sem grandes impactos ambientais. Para isso, ele orienta a verticalização da produção: ''o agricultor precisa estar mais perto do consumidor''.
O fim do protecionismo e a abertura à competitividade na união européia, na opinião de Morris, deve vir seguido de exigências ou regras que garantam a igualdade de produção e a conservação do meio ambiente. Para ele, a responsabilidade sobre os cuidados com o uso de substâncias químicas, como exige cada vez mais o consumidor, deve ser dividida com a indústria química. ''As grandes empresas têm uma responsabilidade social. A reputação delas fica ameaçada se a agricultura é colocada como fator de degradação ambiental'', atesta.
A produção sustentável, para o economista, lança também desafios à agricultura orgânica em produzir alimentos em quantidade e com preços melhores. Ele destaca que a atual produção de orgânicos em seu país é insuficiente até mesmo para garantir a demanda interna, mas tem um grande potencial a ser explorado. O crescimento dessa técnica de cultivo, porém, está na dependência do valor a ser pago pelo consumidor. ''O mercado já oferece alimentos saudáveis, com quantidades mínimas de resíduos químicos a preços baixos'', observa.
Morris disse que a preocupação com a qualidade dos alimentos na Grã-Bretanha é maior do que ocorre no Brasil motivada por problemas de contaminação enfretados por aquela população na década de 90, como o caso da ''vaca louca''. Por isso, ele prevê a exigência da rastreabilidade dos produtos agrícolas, como ocorre com a carne: ''se as informações do produto são importantes para a escolha do consumidor, elas serão fundamentais para a produção''. Essa regulamentação, segundo Morris, já ocorre voluntariamente, mas que leva a um ''controle obrigatório'' administrado não pelos governos, mas por auditorias independentes ou empresas responsáveis pela certificação desses produtos.
Morris destacou ainda que os agricultores ingleses também enfrentam dificuldades na comercialização pois o setor agroindustrial e o varejo são muito controlados por poucos grupos. Naquele país, informa, não é forte a tradição do associativismo e do cooperativismo. Para o economista, entretanto, a união dos produtores é o caminho para se enfrentar o sistema e aumentar o poder de negociação.


