Ceasa quer atrair mais produtores
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de dezembro de 1996
Silvana Leão 
A Secretaria Estadual da Agricultura e Abastecimento (Seab) quer reativar a Central de Abastecimento (Ceasa) de Londrina, trazendo de volta os produtores de hortifrutigranjeiros que, há dez anos, passaram a concentrar suas vendas no Mercadão Londrina, localizado no Jardim Ideal (zona leste da cidade). Para isso, estão sendo dados alguns incentivos, que se estendem também aos atacadistas.
Os principais incentivos são a construção de um barracão de 800 metros quadrados para que os produtores possam negociar sua mercadoria direto com os varejistas; isenção da taxa de R$ 3,00 por dia, nos dois primeiros meses, para os produtores (esta taxa de uso é cobrada para cobrir despesas com segurança, energia e limpeza); e isenção por dois anos do aluguel do Termo de Permissão Remunerada de Uso (TPRU) para os atacadistas. Além destas medidas, a Seab, que administra a Ceasa, pretende intensificar nos próximos dias uma campanha, informando sobre a reestruturação da Central.
Incentivos Segundo Oscar Tomio Ochiro, gerente da Ceasa em Londrina, a iniciativa partiu dos próprios produtores, que estão sentindo necessidade de mais uma opção de venda no município. Ele argumenta que hoje em dia está mais fácil comercializar na Central de Abastecimento (localizada na Rodovia Melo Peixoto, saída para Ibiporã). Antigamente só havia uma pista, dificultando o acesso. Além disso, como a cidade era menor, a distância até aqui, consequentemente, era maior.
Outra vantagem oferecida pela Ceasa, atualmente, são as taxas mais acessíveis. Quando alguns atacadistas resolveram, no passado, abandonar este ponto de venda e construir o Mercadão do Ideal, o principal motivo teriam sido os altos aluguéis cobrados pela Central. Hoje, segundo Ochiro, é o Mercadão que cobra as maiores taxas.
Os incentivos criados pela Ceasa, que entraram em vigor no último dia 17, deram resultado rápido: todos os 146 boxes, de acordo com Oscar Ochiro, foram preenchidos. Até algumas semanas atrás, dois terços dis boxes estavam ociosos. Agora, existem inclusive produtores que adquiriram boxes para comercializar sua produção direto com os varejistas, sem a intermediação dos atacadistas.
O gerente da Ceasa afirma que a presença de produtores negociando direto com varejistas não tem causado insatisfação por parte dos atacadistas, já que os produtores atraem compradores, o que é interessante para todos. E atrair compradores é uma das principais metas a ser alcançada com a reestruturação da Central de Abastecimento.
Nos últimos anos, Londrina perdeu muitos compradores de fora, inclusive de outros Estados, que negociavam carga fechada. Esse pessoal começou a procurar outros centros, como Maringá, Presidente Prudente (SP) e até mesmo a Ceagesp, em São Paulo. A explicação para o abandono, segundo Oscar Ochiro, teria sido a falta de infra-estrutura do Mercadão localizado no Jardim Ideal, que ficou pequeno para acolher todo o movimento que, na última década, praticamente se concentrou lá. Chegamos a um ponto em que 80% dos atacadistas de Londrina trabalhavam no Mercadão, e apenas 20% aqui na Ceasa, recorda Ochiro.
Pouco movimento A Ceasa comercializa 2.500 toneladas de hortifrutigranjeiros por mês, enquanto o total de Londrina chega a 12 mil toneladas. Segundo o gerente, não existe uma meta a ser atingida em termos de volume comercializado, mas apenas a satisfação dos produtores. A grande preocupação da Secretaria da Agricultura é não deixar os produtores nas mãos do monopólio dos atacadistas. Eles não podem ser proibidos de comercializar em mais de um lugar, diz o gerente, afirmando que a intenção não é prejudicar o Mercadão, mas apenas oferecer uma opção a mais de comercialização, criando uma concorrência benéfica para os preços.
DúvidasEmbora Oscar Ochiro afirme que todos os boxes estão ocupados, o movimento, na semana passada, ainda era considerado insatisfatório pelos comerciantes. Suzuki Kaoro, proprietário da única lanchonete instalada no local, disse, inclusive, que há insatisfação com a forma como os boxes vêm sendo distribuídos. Ele duvida que estejam todos ocupados. Estou trabalhando no vermelho há um ano, desde que montei o negócio, revela.
Kaoro explica que a sua lanchonete está funcionando num espaço provisório, pois o local destinado a esse fim é maior. Com o escasso movimento, porém, não compensa. O comerciante não tem muita esperança de que a Central volte a ter grande movimento, pois criaram muitas dificuldades, espantando os produtores. É difícil agora para eles voltarem. A única saída, na opinião de Suzuki Kaoro, seria a municipalização da Ceasa.
O proprietário da lanchonete não é o único a pensar assim. Edson Manoel Sobrinho, atacadista de alho, cebola e batata, também acha que se o espaço passasse a ser administrado pelo município, de forma que Ceasa e Mercadão fossem uma coisa só, as chances de recuperação seriam muito maiores. Trabalhando no local há 20 anos, o atacadista observa que o espaço na Central de Abastecimento é muito bom; falta dinamizá-lo, melhorando a infra-estrutura disponível para os comerciantes.
Ritmo lento Melhorar a infra-estrutura é uma questão fundamental também na opinião de Paulo Soranso, produtor de Rolândia que fornece uva, pimentão, pepino e vagem para atacadistas da Ceasa há cinco anos e um dos que adquiriram, com o movimento de reestruturação, box para comercializar sua produção direto com os varejistas. Soranso acha que a tentativa de dinamizar as atividades na Central de Abastecimento começou muito devagar.
Ele acredita que a proposta seria muito mais eficiente se incluísse, por exemplo, a construção de restaurante, banheiros e sala-de-estar para receber melhor os produtores, que têm que enfrentar a falta de estrutura do local. Do jeito que está, o produtor sofre tanto para entregar a mercadoria que no outro dia não tem condições de trabalhar na propriedade, afirma.
A exemplo de outros comerciantes, Paulo Soranso acha que só a mudança na forma como é administrada a Ceasa traria resultados de fato eficientes. O Mercadão do Ideal funciona bem porque está na mão da iniciativa privada, diz. Para o produtor, um incremento mais eficiente no movimento da Central só traria vantagens, como gerar novos empregos e trazer de volta os compradores de fora.


