Cearenses exportam para a Suécia
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de janeiro de 1997
Jota Oliveira 
A Suécia, segundo consumidor mundial de café,per capita - o primeiro é a Finlândia -, está comprando a produção de café orgânico que ajudou a financiar no Maciço do Baturité, em Sobral, no Ceará. Até dia 15 deste mês deverão ser embarcadas, pela Associação dos Produtores Ecologistas do Maciço do Baturité (APEMB), as 100 primeiras sacas do café ecológico cearense, cuja qualidade já foi aprovada pela Arvid Nordquist, da Suécia.
Cinquenta por cento do café consumido na Suécia são comprados no Brasil. A cada ano o sueco bebe 136 litros de café, equivalentes a 9 kg per capita/ano, informa o engenheiro de pesca Genário Azevedo, coordenador da Fundação Cultural Educacional Popular em Defesa do Meio ambiente (Cepema).
A Cepema, parceira da Sociedade Sueca em Defesa da Natureza, e da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Ceará, na promoção e execução do Projeto Café Ecológico, é uma ONG que trabalha há dois anos com agricultura ecológica. Ela é integrante da rede internacional Terra do Futuro, sediada em Estocolmo, Suécia. Este ano, pela primeira vez em sua história, a Terra do Futuro é presidida por um não-sueco, o brasileiro Adalberto de Alencar, que é o presidente da Cepema. Para o Projeto do Café Ecológico, a ONG cearense recebeu US$ 300 mil financiados pela Sociedade Sueca de Proteção à Natureza e Governo do Ceará.
Mercado cresceA Suécia faz campanha para evitar produtos que causem efeitos negativos ao meio ambiente de origem e à população, e o Parlamento sueco estipulou como meta para o ano 2000 que no mínimo 10% de todos os produtos agrícolas consumidos no País sejam de origem orgânica, isto é, produzidos sem insumos químicos, segundo o coordenador da Cepema. É o caso do café ecológico do Ceará, que é produzido sem a utilização de agroquímicos (agrotóxicos e/ou adubos químicos).
Parte do financiamento do Projeto Café Ecológico vem da Sociedade Sueca em Defesa da Natureza, uma ONG de 200 mil membros, fundada há 85 anos, diz Genário Azevedo. Desde o ano passado - acrescenta o ecologista - essa ONG faz campanha massiva contra o café produzido com veneno, e ao mesmo tempo ressalta as vantagens de se consumir café sem agrotóxico.
Segundo o coordenador da Cepema, o crescimento desse mercado abre espaço para a exportação de outros produtos do Ceará. Ele reconhece que o retorno das primeiras sacas é mais a conscientização dos produtores. Teremos inicialmente o ganho ecológico, comenta.
No início o produtor já tem um ganho financeiro, pois o café ecológico vale mais. Os suecos estão pagando um sobrepreço de R$ 30,00 por saca, pelo produto colhido sem veneno: enquanto o preço local do café conduzido da maneira convencional é de R$ 100,00, e sobre ele incide taxa de 1% do ICMS, o ecológico é vendido por R$ 130,00 a saca, livres.
Selo ecológicoEsta é a primeira safra do café ecológico do Baturité. Os produtores fizeram cursos e recebem a orientação de agrônomos. Mas não é só plantar para ter garantida a exportação. O certificado de que o produto é isento de agrotóxicos é dado por etapa. Depois do curso de preparação de mão-de-obra e ambiente para o trabalho, os técnicos visitam o produtor.
Os primeiros produtores já venceram essa etapa e receberam a visita do principal órgão certificador sueco, o KRAV (Kontrollforeningen for Ekologisk Odling), que dá o selo ecológico ao produto, o que garante um respaldo importante junto ao consumidor daquele país e de outros mercados internacionais.
Periodicamente os inspetores do KRAV visitam os produtores, para aferir a garantia ecológica do produto. Genário lembra que são as propriedades (sítios, fazendas) as detentoras do certificado. Isto possibilita a exportação não só de café, mas também de outros produtos como açúcar mascavo, rapadura e outros, com o mesmo registro.
QualidadePara um café ter boa aceitação não basta ser ecológico. É preciso ter a qualidade que o exigente mercado internacional requer, ressalta o coordenador da Cepema. Para isto, o Projeto Café Ecológico mantém um escritório em Mulungu, com um engenheiro agrônomo e três técnicos agrícolas que dão assistência aos cafeicultores. E esteve na região, por quatro meses, um técnico em controle de qualidade de café, que trabalhava em uma empresa de Minas Gerias. Este técnico capacitou 60 jovens para fazerem a seleção manual do café ecológico.


