Um projeto de integração de codornas, iniciado em 1993, na cidade de São Jerônimo da Serra, há 100 quilômetros de Londrina, que tinha tudo para transformar e ‘‘revolucionar’’ a economia do município e região, além de ser outra fonte de renda ao pequeno produtor, gorou. A frustração envolveu, além de produtores, os irmãos Moacir e Edinilton Veras, um suposto veterinário chamado Vanderli Nunes e até técnicos da Emater, órgão de extensão rural da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Estado do Paraná.
Nogueira calcula que seu prejuízo somou R$2 mil em valores atuaisA integração não durou mais de seis meses e revolucionou sim a vida (para pior) de cerca de 20 produtores que entraram no projeto. Na época o dinheiro para iniciar a criação de codornas foi conseguido junto ao Banestado, através do Programa Panela Cheia, em que o produtor teria dinheiro para custear a construção de um barracão para abrigar as aves e investir na compra de gaiolas e matrizes. No final teve gente soltando as aves, vendendo gado e imóveis para saldar o financiamento.
De quem foi a culpa?Pelo acordo firmado com os irmãos Veras e Nunes, no começo o fornecimento de matrizes e ração seria trocado pela produção de ovos. Eles garantiam mercado certo para a produção e rendimentos atraentes aos produtores. O acordo, verbal, durou pouco. Entre erros e mal-entendidos, hoje produtores culpam os donos da integração, que se defendem, culpam produtores e até a própria Emater.
Dorico da SilvaHélio Endo parou por falta de tempo, mas acredita na atividade. Restaram algumas gaiolas na propriedadeDe acordo com o produtor Hélio Endo, que na época entrava no negócio de codornas por iniciativa própria, com pouca experiência na área, os fornecedores da integração (os Veras) acabaram entregando aves muito novas que, quando colocadas nas gaiolas, fugiam pelo buraco onde ficariam os ovos e morriam.
Barco furadoO chefe regional da Emater em Cornélio Procópio, Paulo Hidalgo, lembra que houve uma série de erros que levaram o projeto à falência. ‘‘Desde o fornecimento de matrizes e repasse de filhotes para os produtores não existiu profissionalismo. Houve também problema com a ração. O projeto nos custou dissabores e um dos piores erros foi confiar demais nos fornecedores. Em atividades novas, como era a criação de codornas na época, muitas vezes é necessário uma dose de risco. Nesse caso, o erro foi confiar demais’’.
Ele alerta que projetos de integração ou de novas atividades dentro das propriedades rurais devem ser melhor investigados, antes de se investir dinheiro no negócio. Há exemplos ruins como o de São Jerônimo e o da acerola na região de Paranavaí, no Noroeste do Estado. Mas há bons exemplos dos projetos de fruticultura na região de Cornélio, no cultivo do pêssego e outras frutas.
Josué de CarvalhoCriação e produção de ovos depende do fornecimento de matrizes de qualidade genéticaO projeto em São Jerônimo naufragou, segundo Hidalgo, a partir do fornecimento de material genético de baixa qualidade e da ânsia de ganhar dinheiro rápido, principalmente por parte do veterinário da integração, que andou pela região ‘‘convencendo os produtores a entrarem no negócio e depois sumiu.’’
Ração ruimSão Jerônimo é uma região fria, tipo serrana, e o começo da integração no inverno, como as codornas são muito sensíveis, prejudicou o desenvolvimento das aves e a postura. Normalmente uma codorna vai para a gaiola aos 28 dias e aos 43 dias de vida começa a botar. No caso da integração, segundo o técnico, as aves foram entregues muito novas. Como não havia ração de qualidade, só começavam a botar aos 60 dias, por falta de alimento, atrasando a produção.
Cada produtor, segundo Hélio Endo, tinha uma média de três mil codornas. Ele calcula que no começo morreram 40% destas aves. ‘‘Além disso, a ração fornecida, produzida na propriedade dos Veras, não tinha proteínas suficientes’’. Endo conta que um grupo de produtores mandou analisar o material no Ital, de Campinas (SP). O resultado: a ração precisaria ter 28% de proteína, mas a análise registrou apenas 14%.
A integração previa assistência técnica para condução da atividade, o que não foi cumprido pelos fornecedores’’, denuncia Lucilene, mulher de Endo. Na época eles tinham criação de duas mil aves e fizeram sozinhos a comercialização da produção. O problema principal da integração, segundo a produtora, foi não conseguir colocar a produção no mercado. ‘‘Enquanto eram poucos ovos, houve comercialização. Na hora em que aumentou o volume, não havia estrutura para venda e os ovos começavam a estragar nas propriedades.’’
Para a vizinhança‘‘De uma hora para outra os donos da integração deixaram de pegar os ovos para vender. No final teve produtor jogando ovos fora, soltando as aves e, para saldar a dívida junto ao banco, vendendo imóveis, cabeças de gado e o que fosse possível para pagar o financiamento’’, conta Endo.
O cabeleireiro Gilmar de Souza Nogueira foi um desses produtores. Entusiasmado pelo rendimento que se propunha com a criação de codornas, ele fez um barracão no fundo de sua casa, em Nova Santa Bárbara, perto de São Jerônimo. Custeou a construção com um financiamento que hoje daria mais ou menos R$2 mil.
Nogueira iniciou a criação com duas mil aves. Nos primeiros três meses, segundo ele, tudo funcionou bem. ‘‘Depois disso o pessoal da integração acabou vendendo ovos estragados, o que denegriu a imagem dos produtores, e quando novamente foram procurar os compradores, não conseguiram vender.’’
O cabeleireiro chegou a pensar em vender o terreno onde construíria sua casa (estava de casamento marcado) e onde estava o barracão das codornas. Mas um cunhado emprestou o dinheiro para quitar o financiamento e ele foi pagando depois, aos poucos.
As codornas, Nogueira soltou na rua. Toda vizinhança saiu pegando as aves. ‘‘Depois teve gente que veio me pedir ração para alimentar as aves’’. As gaiolas foram vendidas para um criador de Astorga, pela ‘‘metade, da metade do preço’’. Nogueira amargou um prejuízo de R$2 mil e ainda deixou de lucrar entre sete e oito salários mínimos mensais, que estavam previstos com o início da criação.
Atividade é viávelO caso de Hélio e Lucilene Endo foi diferente. Como dos poucos produtores a não entrarem no projeto, continuaram a criação, comercializando os ovos em Londrina e até ajudaram outros produtores a venderem a produção. ‘‘Alguns produtores da integração conseguiram repassar as codornas para outras pessoas. Mas essas aves já estavam com problemas.’’
A criação dos Endo acabou mais tarde, em 1996, por que havia maior demanda de ovos do que eles conseguiriam produzir. Além disso, naquela época a família morava em Londrina e a criação ficava em São Jerônimo, dificultando o manejo das aves. ‘‘Chegamos ao ponto de investir mais no negócio ou parar. Resolvemos parar, no pico, sem prejuízos’’, afirma Lucilene Endo.
De acordo com Lucilene a criação de codornas é sempre um bom negócio, desde que organizada. A opção de acabar com a atividade para eles foi ‘‘por falta de tempo’’. Ela também defende os sistemas de integração, desde que sejam feitos ‘‘por pessoas idôneas e com certa experiência no negócio’’.
‘‘A confiança no mercado só se consegue depois de um ano de fornecimento, exatamente porque há muita gente entrando e saindo de atividades como a criação de codornas todos os dias. No caso das codornas é preciso também, quando as aves completam 15 meses, trocar as matrizes, já que cai a frequência de postura delas e isso demanda novos investimentos.’’FrustraçãoBarracão onde Nogueira mantinha a criação foi aberto e vizinhança pegou as avesCláudia Barberato

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