O volume de casos confirmados de raiva bovina cresceu 37% em 2024 em comparação ao ano anterior em território paranaense. De janeiro a novembro de 2024, foram registrados 241 casos (212 focos), contra 176 casos (148 focos) em todo o ano de 2023.

Os cinco municípios que mais confirmaram casos de raiva bovina em 2024 foram Lindoeste (31 casos), Campo Bonito (28), Guaraniaçu (25), São João do Triunfo (16) e Catanduvas (15 casos). Ao todo, foram registrados casos em 46 municípios em 2024.

Elzira Jorge Pierre, coordenadora do Programa de Prevenção e Controle de Raiva da Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná), considera que o principal motivo para o aumento de casos é o fato de a vacinação contra a raiva não ser obrigatória.

“A maioria dos produtores que tiveram focos em suas propriedades só vacina após perder o primeiro animal com diagnóstico laboratorial confirmado”, pontua. Outro fator que explica o aumento são as interferências sobre os abrigos de morcegos hematófagos, como a duplicação de rodovias, por exemplo.

A raiva bovina é uma doença infecciosa causada por um vírus que ataca o sistema nervoso central de mamíferos. É uma zoonose rápida e fatal, tanto para os seres humanos como para os animais. Não há tratamento e raríssimos casos de cura humana foram relatados na história, mas com sequelas gravíssimas.

Elzira explica que não há calendário para a vacinação contra a raiva. A vacina pode e deve ser aplicada a partir dos 3 meses de idade, necessitando um reforço após 21 a 30 dias, e a revacinação deve ser anual.

“Em locais onde há muitos focos, recomenda-se a vacinação até duas vezes ao ano. A vacina é a única arma de prevenção eficaz contra a raiva, seu custo é baixo e funciona bem. A vacina deve ser adquirida pelo proprietário dos animais”, acrescenta.

Além da vacinação, a coordenadora esclarece que há outras ações que o criador pode adotar para prevenir a raiva bovina.

“O produtor deve notificar todos os casos suspeitos de raiva em sua propriedade e pode e deve fazer uso da pasta vampiricida, em torno das mordeduras de morcegos hematófagos em seus animais, sempre no final da tarde e pelo menos por 3 dias. Fazendo assim, ele estará colaborando para o controle seletivo indireto do morcego hematófago transmissor da raiva aos animais.”

Também é obrigação do produtor notificar a Adapar, não só a respeito da presença de animais espoliados por morcegos em sua propriedade, como também sobre a presença de locais que possam servir de abrigos de morcegos hematófagos nas redondezas.”

A notificação pode ser feita em qualquer dos escritórios locais da Adapar ou por meio do link https://sistemasweb4.agricultura.gov.br/sisbravet/manterNotificacao!abrirFormInternet.action.

A partir da notificação eletrônica, é disparado um e-mail ao escritório local e, em até 24 horas, será feito o atendimento pelo médico veterinário fiscal de defesa agropecuária responsável.

Com propriedade em Campo Bonito (segundo município com maior número de casos de raiva bovina no Paraná em 2024), o criador Ederlei Rocha resolveu, a partir de 2024, vacinar o plantel para reforçar a prevenção.

“Não tive nenhum caso aqui na minha propriedade e nunca tinha vacinado meus bois, mas a partir de agora vou vacinar todo ano. O custo não é alto”, afirma o pecuarista, que hoje cria aproximadamente 800 cabeças.

A ZOONOSE

A raiva é transmitida aos animais pelo morcego hematófago da espécie Desmodus rotundus, quando ele está contaminado.

A transmissão, no entanto, praticamente não ocorre de um animal para o outro, pois necessita da mordedura do morcego para inocular o vírus.

“O Desmodus rotundus tem o hábito de voltar no mesmo animal para se alimentar, até que o animal morra. O animal contaminado não pode ser sacrificado, pois o diagnóstico positivo só será possível após a morte do animal pela doença. A maioria dos animais morre em uma semana do início dos sintomas.”

A coordenadora explica que a ocorrência de um foco de raiva não interdita a propriedade, muito menos determina o sacrifício do plantel. Nenhum animal doente deve ir para o consumo humano.

Numa colônia de morcegos hematófagos em equilíbrio, menos de 1% da população de morcegos está contaminada pelo vírus da raiva. Nos casos de grandes focos, esse índice pode subir para 30%, aumentando as chances de infecção.

“É importante lembrar que os morcegos são animais silvestres protegidos por legislação ambiental e a Adapar somente pode controlar e não exterminar a espécie Desmodus rotundus, principal transmissor da raiva aos animais.”

Todos os morcegos encontrados mortos ou caídos devem ser encaminhados para a Adapar para o diagnóstico laboratorial, tomando-se o cuidado de não tocar diretamente no animal.

CONTROLE

A Adapar faz a vigilância para possíveis casos suspeitos, com a colheita de material do sistema nervoso central do animal (amostra do cérebro, cerebelo, tronco encefálico e medula espinhal), dos animais mortos com a suspeita de raiva para o diagnóstico laboratorial.

Nas propriedades que registraram focos, há a comunicação oficial para a Secretaria da Saúde e o encaminhamento das pessoas que tiveram contato com o animal afetado, para triagem e atendimento pós-exposição.

É orientada a vacinação de todos os animais suscetíveis da propriedade e o uso da pasta vampiricida nos animais espoliados. Além disso, é feita a revisão e captura estratégica nos abrigos de morcegos hematófagos cadastrados.

SINTOMAS

O primeiro sintoma da raiva bovina observado nos animais é a mudança de comportamento.

O animal afetado se afasta do rebanho, apresenta dificuldade para urinar, defecar e engolir, apresentando salivação abundante. Após isso, começa a dificuldade para andar com os membros posteriores, até que o animal cai e, apesar de tentar, não consegue se levantar mais.

A doença progride com o aparecimento de contrações musculares involuntárias, com a cabeça voltada para trás, e a morte costuma ocorrer em 7 a 10 dias a partir do início dos sintomas.

“É importante que os produtores façam uso da vacina para prevenção e não somente depois que a raiva chega em sua propriedade. Isso é muito importante, pois nos bovinos o período de incubação pode levar até 90 dias. Se o produtor deixar para vacinar depois que o animal já esteja contaminado, a vacina não funcionará e ele perdeu um tempo precioso na prevenção. A vacina antirrábica é preventiva e não curativa”, conclui a coordenadora.

mockup