A pecuária brasileira passa por um momento de vitalidade e definições. Se por um lado as exportações de carne não param de crescer, colaborando para aumentar o superávit comercial do País - apenas em carne in natura foram vendidos no exterior mais de US$ 400 milhões entre janeiro e maio -, por outro a atividade enfrenta desafios para encontrar o seu caminho.
Nesse processo envolve-se em discussões paralelas, que ganham repercussão e acabam prejudicando a cadeia produtiva.
Estou me referindo à discussão sobre qualidade da carne. Por mais que os criadores de raças européias afirmem sempre que o cruzamento industrial é uma dádiva porque une duas linhagens distintas, bos taurus e bos indicus - e que, por isso mesmo, os produtos resultantes incorporam as melhores características dos seus pais -, as informações levadas ao público nem sempre são corretas sob o ponto de vista científico.
Resultado: uma grande confusão, que acaba colocando a pulga atrás da orelha do consumidor final, esse importante agente da cadeia.
O que fazer? Massificar a informação. Mais do que nunca é preciso reforçar os conceitos de marmoreio: sabor, maciez e suculência. Pesquisas com consumidores confirmam que carne macia e saborosa são os objetos de desejo do apreciador da proteína vermelha. E essas são as características do bos taurus e dos seus cruzamentos com o zebu. Aliás, essa é a carne desejada pelo mundo.
As exportações são o melhor exemplo do que estou falando. O Brasil está batendo recordes de vendas, mas os preços estão baixos. São os mais baixos do mundo. Por que? Porque vendemos quantidade e não qualidade. Afinal, somos o único país em condições de suprir as necessidades dos importadores após os casos de vaca louca na União Européia e de aftosa na Argentina e no Uruguai.
O grande desafio é manter o crescimento das exportações, mas agregar valor, levando ao mercado internacional carne de qualidade - resultado do cruzamento industrial. Aí, sim, a pecuária nacional terá atingido o patamar ideal em volume e em receita.
A questão requer empenho e muito trabalho de todos. Mas as oportunidades para o Brasil são fantásticas. Nossos principais competidores enfrentam problemas internos. A Austrália, líder em exportação de carne bovina, deve perder essa posição no ranking em 2003 porque enfrenta estiagem. O próprio país estima recuo de até 10% nas vendas externas já este ano. Bom para nós. Os Estados Unidos, segundo maior exportador, convivem com pressão ambientalista e redução das áreas de criação. Sem dizer que estão, também, entre os maiores importadores de carne.
Este cenário aponta para o Brasil. E a nossa pecuária está, aos poucos, conquistando espaço. Mas é preciso que não perca o foco em seu diferencial mais relevante e festejado pelos importadores: a diversidade de opções de cruzamento industrial, que proporciona a oferta da carne que o mundo quer, com a necessária espessura de gordura, com maciez e suculência sem igual, com rastreabilidade e certificação de origem.
Nós, pecuaristas, temos um papel fundamental. Precisamos manter o rumo e continuar trabalhando forte para produzir essa carne de qualidade, com a rusticidade do bos indicus e utilizando o bos taurus, seguindo a tendência do cruzamento industrial - os principais fornecedores de carne bovina no mundo trabalham com cruzamento -, mas sem hormônio, com alimentação à base de capim e criação extensiva. Estes, sim, os diferenciais que só o Brasil tem.
(*) Luiz Eduardo Batalha é pecuarista

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