Melhoramento genético é sinônimo de sucesso na pecuária. Os dois processos mais utilizados nesta tecnologia - a seleção e o cruzamento industrial - se mostram ferramentas importantes para o criador que quer transformar-se num verdadeiro produtor de carne. É claro que não basta escolher duas raças e cruzá-las aleatoriamente para obter bons resultados. Manejo e alimentação contribuem, e muito, para a qualidade da carne produzida.
A degustação promovida pela Folha Rural no último sábado contou com a participação de quatro raças, que forneceram animais puros e cruzados para a avaliação dos convidados. As raças angus e nelore levaram animais puros, abatidos com 22 meses e 2,5 anos de idade, respectivamente. Ambos terminados a pasto. Já as raças limousin e charolês apresentaram animais meio sangue - frutos do cruzamento com matrizes zebuínas -, com idade entre 15 e 19 meses, respectivamente, terminados em confinamento. A quinta carne analisada foi a de um boi comprado num açougue de Londrina, sem qualquer informação quanto à rastreabilidade.
A diferença entre as raças já foi percebida na aparência das carnes. Os animais mais jovens produziram carne de coloração mais rosada. O tamanho dos cortes também era menor. Tais características influenciaram diretamente a maciez da carne, ressaltada pelos degustadores. Vale lembrar que durante a organização do evento foi definido que os animais participantes deveriam ser precoces, com idade entre 18 e 24 meses. Além de desmistificar a carne de segunda, o objetivo da reportagem era promover a carne do novilho precoce.
''O brasileiro não tem cultura de carne como os europeus, que podem escolher produtos de qualidade nos mercados e pagar mais por isso'', diz Pedro Nunes, superintendente técnico da Associação Brasileira de Limousin. Para ele, falta conscientizar a população, que ainda não conhece a carne que está comprando. ''O mercado diz que a carne comercializada é de animais abatidos com até três anos, quando, na verdade, o animal que nós comemos tem mais de quatro anos de idade'', critica.
O veterinário Antonio Laércio Sversuti, responsável técnico pelo Núcleo de Criadores de Charolês do Norte do Paraná, assegura que os brasileiros já têm acesso à carne de qualidade destinada à exportação, sem pagar muito mais por isso. ''Já existem programas que garantem tranquilamente a produção de carne de qualidade superior a que é consumida hoje'', afirma.
O cruzamento industrial é o principal instrumento destes projetos, assegura o veterinário Antônio Chaves, técnico da Associação Brasileira de Angus. Exemplo disso, é a adaptabilidade do touro europeu em regiões mais quentes quando cruzado com uma matriz zebu. ''Os animais puros da raça angus concentram-se nas regiões mais frias, mas quando cruzados, podem ser criados em qualquer lugar do Brasil'', declara. Ele ressalta a importância da raça angus na produção de um alimento de qualidade. ''É a raça mais abatida na Argentina, Austrália e Estados Unidos, principais concorrentes do Brasil no mercado externo'', avisa.
Para o pecuarista Alexandre Kireff, de Londrina, apesar das raças européias conferirem precocidade e marmoreio - características que garantem maciez à carne - a raça nelore ainda é a única opção economicamente viável no País. ''Conseguimos produzir em quantidade, com preço competitivo e padrão de qualidade aceitável no mercado internacional'', assinala. ''Não é a toa que 80% dos animais exportados pelo Brasil são nelore'', finaliza.

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