Capivaras. O que fazer com elas?
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sexta-feira, 17 de julho de 1998
Cláudia Barberato 
Produtores que mantém lavouras próximas do Ribeirão Vermelho, que banha os municípios de Bela Vista do Paraíso, Sertanópolis, Londrina e Cambé, no Norte do Estado, estão deixando de plantar faixas de milho e trigo devido ao ataque de capivaras, que comem a produção e causam prejuízos. O problema é antigo mas, segundo os lavradores, nos últimos anos as capivaras têm causado danos crescentes.
Em Bela Vista do Paraíso, a 43 quilômetros de Londrina, a maioria das propriedades têm pequenos rios passando por dentro delas ou as margeando. Capivara é comum ali, mas a lei proíbe a caça de animais silvestres, e não existem mais seus predadores naturais como a onça-pintada ou o jacaré. A capivara se reproduz rapidamente (duas crias por ano com seis a sete filhotes).
Prejuízo o ano todoTrigo e milho-safrinha no inverno; a soja e milho no verão, têm sido um prato cheio. Com o desequilíbrio ambiental, provocado por falta de reservas de mata e vegetação nas margens dos rios, as capivaras procuram alimento nas lavouras.
Os produtores dizem que mesmo em áreas onde o percentual legal de matas foi preservado, há capivaras comendo as lavouras. Mesmo com alimento farto perto dos rios ou represas onde vivem, os roedores têm andado grandes distâncias para comerem a roça dos produtores.
Mário CésarEstragos na lavoura de milho safrinha. Vários pontos foram raspados até o toco das plantas. Prejuízo pode chegar até R$10 milDe acordo com Ricardo Araújo, dono de uma propriedade em Bela Vista, até há pouco tempo os estragos nas lavouras eram toleráveis. Com o passar dos anos, o número de capivaras aumentou tanto que é comum vê-las em bandos de 40 a 60.
O arrendatário Luiz Rossi Pissinati, que plantou o milho safrinha este ano, numa propriedade próxima da Embrapa Soja, na Warta (Distrito de Londrina), reclama que gastou com preparo da área, adubo, calcário, herbicida, e agora deverá ter um prejuízo de R$4 mil em função do ataque de uma parte da lavoura.
Cobrando prejuízosEm ações isoladas, muitos dos produtores que se sentem prejudicados, já procuraram o IAP e o Ibama. Há críticas em relação ao atendimento por parte dos órgãos. Os produtores se dizem perdidos, sem saber o que fazer. Mas agora querem cobrar responsabilidade sobre seus prejuízos.
Reunidos no Sindicato Rural de Bela Vista, dia 3 de julho, eles discutiram o assunto e decidiram preparar ação conjunta para a resolução do problema. Daqui a pouco estaremos plantando só para as capivaras. Se a gente deixa de plantar uma faixa elas atravessam e atacam a lavoura mais acima, disse, inconformado, um dos produtores.
Problema antigoO produtor Luiz Bersenatti, proprietário na Prata, distrito de Cambé, divisa com Bela Vista, reclama que tem problemas com ataque das capivaras há 12 anos. O Riberão Vermelho pega 5.400 metros da sua propriedade. O estrago está numa faixa de três a quatro alqueires de milho e trigo. Ele calcula um prejuízo de R$3 mil.
O milho cultivado nas terras da região tem uma produtividade média de 250 a 300 sacas por alqueire. No impedimento de vender esse milho, na faixa dos R$7 a R$9 a saca, o produtor poderá ter prejuízo de até R$10 mil, somado o investimento que foi feito no solo para o plantio e cultivo.
Grande estragoLucindo Vendram, com propriedade da Água do Porã, um afluente do Vermelho, planta arroz e colhe 250 sacos por alqueire, e sofre um estrago de 20 a 30 sacos. O prejuízo representa 20% na ponta do lápis, há mais de três anos, calcula.
Há dois anos o produtor Genésio Bachega, também da região de Bela Vista, planta soja no verão e trigo no inverno, e sofre um prejuízo de 10% de sua produção, pelo ataque das capivaras. Da soja elas comem um alqueire. Do trigo já estão comendo, mas não quero nem ir na lavoura para ver o prejuízo, desabafa.
Deixando de plantarO administrador da Fazenda Estrelinha, José Felismino, afirma que vê o estrago das capivaras nas lavouras há 16 anos. Este ano ficou resolvido: três alqueires ficaram sem plantio. A área já estava preparada. Nessa área que foi cultivada, com milho safrinha, ele calcula que os danos vão chega a R$ 10 mil.
Também na Fazenda Ribeirão, que pega cinco quilômetros do Ribeirão Vermelho, há dois anos três alqueires de milho safrinha deixaram de ser plantados. Segundo o administrador, Luiz Marques Paloni, mesmo assim os bichos ultrapassam a área vazia e vão comer o milho. As capivaras, segundo ele, chegam a andar de 800 metros a 1 quilômetro atrás de comida.
Na localidade de Água da Indiana, afluente do Vermelho, João Batista dos Reis Filho foi outro produtor que deixou limpa parte de uma área drenada, onde plantava cinco alqueires de arroz. Nas outras áreas, calcula perda de três a quatro alqueires no milho, trigo e aveia.
Elas selecionamMuitos produtores daquela região fazem rotação anual. Uma área que recebeu milho num ano, não receberá no ano seguinte. As capivaras, de acordo com os produtores, perseguem a lavoura e não comem só nas beiradas. Elas acham o milho ou o trigo, onde eles estiverem, brinca Araújo.
O produtor de milho para sementes, Antônio Luiz Ruela da Silva, com propriedade na Prata, de Cambé, na divisa com Florestópolis e Bela Vista, já pensa em colocar cercas com telas (utilizadas na suinocultura).
No caso de Silva, o investimento com pivôs centrais na lavoura é maior; e o prejuízo também. Ele já fez cerca elétrica (dois mil metros) para proteção e distribuiu sal mineral em um pasto para atrair as capivaras. Não adiantou.
Trabalho perdidoOutra medida foi colocar um funcionário fazendo manutenção das cercas, para as deixar em pé e o terreno limpo. As capivaras derrubam a cerca e partem para cima das lavouras. Silva joga creolina nos rastros feitos pelos animais, o que também não resolve.
O prejuízo é enorme, garante o produtor, que pode ter seu negócio inviabilizado. Num campo para sementes se os animais comem a planta macho do milho, não haverá polinização da planta fêmea e, consequentemente, não haverá produção. O investimento para a produção de sementes de milho, realizado na propriedade chega quase a dobrar o valor do alqueire.
Grandes e pequenosO problema das capivaras atinge também pequenas propriedades com a de Arlindo Tomaelli, que tem cinco alqueires e meio de terra, cultivados com trigo no inverno e soja no verão. Todo ano tenho prejuízo, afirma. As capivaras, segundo ele, comem o milho que cultiva nas curvas-de-nível e não ficam só nas beiradas no caso do trigo.
RecuperaçãoO produtor Stefan Carlos Heinz Stremlow, da Fazenda Vale Verde, na região de Bela Vista, afirma que já teve muitos problemas com capivaras, mas que hoje não são relevantes. Stremlow afirma que a solução é fazer o que o Ibama determina, adequando beiras de rios, com áreas de preservação permanente. Ele está desenvolvendo um projeto de recomposição nas margens dos rios que circulam na sua propriedade e não planta mais nas proximidades das águas.
Condição privilegiadaNa Fazenda Couro do Boi, de Ricardo Araújo, as capivaras têm condições privilegiadas: encontro de três pequenos ribeirões e várias represas, construídas dentro da propriedade. Ali, segundo Araújo, existem vários bandos, que atacam lavouras do milho e do trigo.
Há três anos ele instalou cercas elétricas (10 quilômetros), para impedir o avanço dos animais nas lavouras de trigo, milho e soja. Nessas áreas há necessidade de roçar, deixar sempre limpo, e aplicar herbicida para o mato não crescer.,
Araújo já foi ao Ibama várias vezes. Ele tem se informado sobre a implantação de criatório comercial. Mas nem todos os produtores têm condição de fazer o criatório. É preciso muito investimento. Mesmo assim, fazendo o criatório, nada impede que bandos que estão em propriedades vizinhas venham a atacar as lavouras da minha propriedade.


