Capivara, caça ou caçadora
Jota Oliveira
O medo da extinção de alguns animais nativos ou exóticos tem permitido a proliferação de espécies que, por sua explosão demográfica, vêm causando danos econômicos à agricultura brasileira. Capivara, pomba-amargosa, parecem estar acima dos interesses da agricultura, embora não constem da relação do Ministério do Meio Ambiente como animais silvestres ameaçados de extinção.
Nessa lista estão incluídas as espécies ariranha, cachorro-vinagre, cervo-do-pantanal, cuxiú, jaguatirica, lobo-guará, mico-leão, mono-carvoeiro, onça-pintada, tamanduá-bandeira, tatu-canastra, uacari-vermelho, uacari-preto, veado-campeiro. Aves apontadas pelo mesmo órgão como ameaçadas de extinção: balança-rabo-canela, tesourão-de-rabo-branco, charão, fura-mato, galo-da-serra, gavião-real, guará (não confundir com lobo-guará, também ameaçado), guaruba, papagaio-de-peito-roxo, pica-pau-de-cara-amarela, pica-pau-de-coleira, pintor-verdadeiro.
Entre esses animais (exceto felídeos como onca-pintada, que de vez em quando caçam no campo um bezerro, um porco) nenhum causa danos econômicos. Pelo contrário, o tamanduá-bandeira é (era em muitas regiões onde já foi exterminado), importante controlador de formigas e cupins. Mesmo as onças, são (eram) úteis como predadoras que evitam (evitavam) a população excessiva de outros bichos silvestres. Capivaras entre eles.
Seguramente, capivaras e pombas-amargosas, ou rolinhas, não se acham em extinção. Graças ao desequilíbrio ecológico, e à proteção oficial (como diz no Correio Rural o leitor Nikolaus Schauff, que perde dois alqueires de lavouras por ano, para as capivaras), elas acham-se muito bem. E, em ambos os casos, as espécies adaptaram-se às comidas modernas (milho, soja, broto de soja, broto de cana), mais fáceis de encontrar e mais tenras do que a flora do mato.
O homem tem boa parte da culpa, sim, ao não poupar o habitat desses seres que se transformaram em pragas. Era preciso semear ou plantar lavouras, que tomaram lugar das matas, dos matos das beiras dos rios (as matas ciliares). Na maioria das propriedades não sobrou quase planta nativa. Como as árvores altas de onde os gaviões e outras aves predadoras avistavam de longe as pombas e se atiravam sobre elas. Faziam o controle natural das pombas, que não atingiam níveis populacionais incontroláveis.
Porém, o tempo da devastação passou; é preciso agora remediar. Fazer isto não é apenas responsabilidade das gerações atuais de agricultores menos agressivos ao ambiente, mas, principalmente, necessita de ações de governo, como a autorização de estações de caça controlada, nas épocas de maior população e ação das pragas. Outra idéia, do próprio governo, é a criação autorizada de animais silvestres - já existem algumas experiências com capivaras, jacarés, catetos, emas e outras espécies. Agricultores têm argumentado que, além de cara, essa alternativa não resolveria o problema de superpopulação dos animais que vivem soltos, pois eles não poderiam ser presos, e continuariam multiplicando-se, procurando alimentos, destruindo lavouras.
Além disso - reclamam -, são muitas as exigências burocráticas para a instalação de um criatório. Outra questão: existe mercado para o consumo de animais silvestres em grande escala? E as pombinhas, fazer o quê com elas, se até a criação de codornas não tem retorno garantido? Nem a de boi, como dizem pecuaristas nesta edição? Para controlar as pombinhas, uma das soluções sugeridas é que as pessoas mais pobres sejam autorizadas a caçá-las, para se alimentarem.
O autor é editor da Folha Rural.

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