Capacitação e alta produtividade
Cristina Côrtes
De Londrina
Privilegiados pela natureza, que generosamente derramou sobre a região do Centro-Oeste dos Estados Unidos uma camada de solo rico em matéria orgânica, os produtores americanos utilizam a melhor tecnologia, para alcançar altas produtividades nas lavouras de milho e soja. Excluindo estes dois fatores, solo e tecnologia, o que faz a diferença é o preparo e formação do agricultor.
O nível médio de escolaridade dos agricultores americanos é de 8 anos, existindo também um grande número de produtores com formação técnica e superior. Em alguns casos, os próprios produtores desenvolvem pesquisas e estudos para adaptar tecnologias à sua realidade regional.
De 1º a 9 deste mês, 34 produtores brasileiros, dirigentes de sindicatos rurais, estiveram visitando a região do Corn Belt, cinturão do milho, composto por quatro estados do Centro-Oeste americano, a convite a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep). A avaliação de boa parte desses agricultores é que aqui no Brasil também existem tecnologias disponíveis e boas condições de produção, mas o que falta basicamente é preparo e formação do produtor.
CapacitaçãoÉ comum ainda hoje, no Brasil, as famílias rurais investirem na formação dos filhos para trabalhar fora da propriedade.O filho que vai ficar para ajudar o pai na fazenda, não precisa estudar, esta ainda é uma idéia muito comum no meio rural.
Para mudar este conceito, a Faep está investindo nessas viagens técnicas e em treinamento de muitos produtores do Paraná. Segundo o superintendente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Ronei Volpi, que acompanhou os produtores na última viagem, a expectativa é que o contato com uma nova cultura possa contribuir para abrir caminhos para uma nova agricultura brasileira. O Brasil está exposto à competição, e está sendo exigido dos produtores uma nova postura, diz Volpi.
Na sua avaliação, a diferença mais importante entre o agricultor americano e o brasileiro é a falta de infra-estrutura e de formação profissional. A média de escolaridade de nossa produtor é de dois anos, informa Volpi. A meta do Senar este ano é treinar 48 mil produtores, com prioridade para programas de gestão. O produtor precisa conhecer seus custos e administrar sua propriedade como uma empresa. E é importante que se liberte da tutela do governo, e se organize mais dentro das entidades de sua categoria, comenta. Nos últimos cinco anos, aproximadamente 250 mil produtores passaram por algum treinamento no Senar.
DiferençasPara o agricultor Clóvis Dapont, presidente do Sindicato Rural de Marmeleiro, no Sudoeste do Estado, o produtor brasileiro tem vergonha do trabalho que faz. Muitos têm vergonha de dizer que são agricultores, de morar no sítio. E lá nos Estados Unidos vimos que é diferente, eles têm orgulho do que fazem,, diz Clóvis. O produtor conta também que, quando construiu uma boa casa para morar na sua propriedade, muitos colegas e vizinhos estranharam e comentaram porque gastar no sítio. Mas eu penso que é de lá que eu tiro o meu sustento, que vivo e trabalho. Porque não ter uma pouco mais de conforto? , comenta Clóvis.
De maneira geral, as estruturas nas fazendas americanas são muito boas. As casas são confortáveis e equipadas com todo tipo de eletrodomésticos. Devido às condições do clima, os produtores constróem barracões climatizados para poderem trabalhar durante o inverno. Até o piso é aquecido pela passagem de água quente. Precisamos ter esta estrutura, para conseguirmos trabalhar durante os meses de inverno, quando fazemos manutenção em nossas máquinas, adaptamos equipamentos, explica Marion Calmer, um dos produtores visitados.
PesquisaOs produtores brasileiros visitaram também o Calmers Agronomic Research Center, localizado em Alpha, no estado de Iowa, que é o maior centro de pesquisa privada do país. Uma propriedade particular, onde o produtor Marion Calmer faz pesquisa por conta própria. Marion tem uma oficina dentro da propriedade e sua curiosidade e criatividade levou-o a inventar uma plataforma de 15 polegadas, para colher milho adensado. O invento está patenteado e ele está negociando com a indústria John Deere, para comercialização do invento.
Calmer está desenvolvendo no momento quatro linhas de pesquisa: experimentos com milho BT, milho adensado, alternativa ao plantio direto e eficiência do nitrogênio. Estuda também várias profundidades de corte do solo. Na sua propriedade de 400 ha, Calmer tem várias áreas experimentais que cultiva com espaçamentos e manejos diferentes para analisar os resultados.
O objetivo é identificar práticas mais adequadas e mais baratas para os produtores da sua região. Segundo o produtor, é importante analisar os resultados em cada região, porque as condições de solos e clima são diferentes e interferem na produtividade. Muitos produtores visitam o centro de pesquisa para cursos e dias-de-campo. O que norteia as pesquisas de Calmer são as necessidades mais urgentes dos produtores da sua região. Por exemplo, as pesquisas com plantio direto estão sendo incentivadas por causa dos problemas de erosão e perda de nutrientes.
Os americanos valorizam muito o trabalho de pesquisa, que normalmente é desenvolvida pelas universidades. Na Universidade de Illinois, por exemplo, no centro do campus, uma pequena área demonstrativa de milho é semeada todos os anos, para registrar que ali nasceu a pesquisa agrícola americana.





