Campo esvazia; cidade incha
Campo esvazia; cidade incha
Jota Oliveira
Até 1960 a população rural brasileira superava (38.767.423 contra 31.303.003) a urbana, mas daí para frente a população das cidades vem crescendo, e em 1970, quando o País tinha 93.139.037 habitantes, 52.084.984 moravam nas cidades e 41.054.053 habitavam os sítios e fazendas. O fenômeno tem preocupado o ministro da Agricultura, Francisco Turra. Ele diz ser possível inverter o processo, desde que haja abertura de mais empregos no campo.
O IBGE constata que a população urbana do Brasil tem aumentado nos últimos 25 anos, num patamar bem superior à média mundial, segundo a Agência Brasil, órgão oficial de notícias do Governo brasileiro. Em 1975, já habitavam as cidades 61,15% da população nacional. E a perspectiva é de que em 2005, quando o Brasil deverá ter, segundo os prognósticos, 177.043.039 habitantes (166.112.518 no ano 2000, conforme projeção do IBGE), 81,21% dos cidadãos residirão nas cidades.
Vinte anos depois, prevê-se, a urbanização chegará a 88,84% dos habitantes do País. Em todo o Mundo, em 2005 a população das cidades (37,73% em 1975) passará a 50% do total, e em 2025 viverão nos centros urbanos 61,07% de todos os habitantes da Terra.
Em 1970 o Paraná, que o próprio ministro da Agricultura apontou, quinta-feira da semana passada, como o maior produtor de grãos do País, capaz de alimentar o Brasil, se não o mundo, tinha 6.908.756 habitantes, dos quais 2.503.780 vivendo na zona rural e 4.404.976 nas cidades. Em 1996 a urbanização eliminou a zona rural da Capital, que passara a ter 0 (zero) morador na roça. Curitiba tinha, então, 584.481 cidadãos na sede da Capital, e 24.545 no campo. Londrina e Maringá, pólos de regiões que cresceram e enriqueceram graças a sua produção agrícola, também continuaram sofrendo o esvaziamento demográfico do campo. Em 1970, dos 228.101 habitantes de Londrina (fonte: IBGE), 163.528 viviam na cidade, e 64.274 moravam na zona rural. Maringá tinha 121.374 habitantes, divididos em 100.100 na cidade e 21.274 na zona rural.
Em 1996, Londrina tinha 412.553 habitantes, dos quais 396.121 na cidade, distritos, vilas e povoados, e apenas 16.432 residentes no campo. Dos 267.942 habitantes de Maringá, naquele ano, 260.955 pessoas habitavam na cidade e somente 6.987 ainda viviam na zona rural.
Mudança definitivaEm 1960 o Brasil tinha 70.070.457 habitantes, dos quais 31.303.054 viviam nas cidades e 38.767.393 moravam na zona rural. O Censo de 1970 já constava a mudança: dos 93.139.037 residentes no País, 52.134.037 moravam nos centros urbanos e 41.054.053 no campo. Em 1996 a população rural brasileira não chegava a 22% - eram apenas 33.997.406 contra 123.082.167.
Terça-feira da semana passada, durante reunião do consórcio Parceria 21, responsável pelo tema Cidades Sustentáveis, na elaboração do relatório que servirá de subsídio para o seminário nacional sobre a Agenda 21 Brasileira, Samyra Crespo, do Instituto Social de Estudos da Religião (Iser), pôs água fria no ânimo daqueles que vêm um refluxo do êxodo rural: Não achamos que as pessoas estejam voltando ao campo...Pelo contrário, a urbanização é um fenômeno pontual e a Agenda 21 Brasileira tem que abordar uma estratégia para que nos preparemos para essa realidade.
O consórcio é formado pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam) e pela Rede de Desenvolvimento Urbano (Redeh), além do Iser, e também trabalha no tema Redução das Desigualdades Sociais. No seminário em que se debateu o tema Cidades Sustentáveis, houve críticas à posição adotada pelo consórcio, de que a urbanização é crescente e de que o campo está perdendo força produtiva. Samyra afirmou que o consórcio continuará defendendo a necessidade de organizar as metrópoles contra os efeitos do inchaço populacional enquanto o campo se esvazia. No Brasil - e provavelmente em todo o Mundo - deve-se responder à pergunta: por que o antigo homem rural, e em especial seus filhos e netos, prefere os favelamentos das cidades ao ar puro do campo? Existem muitas respostas, entre elas a inexistência de serviços básicos, de um lado, e a falta de uma política agrícola de governo, não de governante, uma política duradoura, de longo prazo, capaz de reter ali no meio de produção o médio e o pequeno agricultores.
O autor é editor da Folha Rural.





