Calor torna grão mais energético
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sexta-feira, 28 de março de 1997
Silvana Leão 
Warren NabucoProibiçãoShirley Buzinhani: Na Europa, alimentos de origem animal já estão proibidos na dieta de bovinosCom a disseminação da doença conhecida como vaca louca, os riscos sanitários que envolvem o uso de proteína animal na dieta dos bovinos têm estimulado, nos Estados Unidos e em alguns países europeus, o uso do grão de soja integral (full fat soya) na alimentação do gado. Para isso estão sendo desenvolvidas novas tecnologias que submetem o produto ao calor e o tornam mais digestível.
A última novidade no setor é um equipamento desenvolvido por engenheiros do Departamento de Engenharia Agrícola da McGill University, do Canadá. Trata-se de um processador baseado no princípio de transferência de calor por condutividade com um meio particulado, ou seja, o grão nunca entra em contato direto com a fonte original de calor, e sim com uma areia, que foi aquecida a uma temperatura suficiente que permite à soja alcançar entre 110 e 130 graus centígrados, por um período de 30 a 45 segundos.
Esta temperatura e tempo são suficientes para obter um grão integral termotratado de alta qualidade. De acordo com os idealizadores do projeto, o termoprocessador permite tratar aproximadamente 6 toneladas de soja por hora.
CaracterísticasEntre as características mais significativas do equipamento estão a facilidade de transporte e a eficiência na utilização da energia, já que o meio particulado se recicla imediatamente quando deixa de estar em contato com o grão de soja integral, explica o nutricionista Javier F. Burchard, do Departamento de Ciência Animal da McGill.
Ele lembra que atualmente existem diferentes maneiras de tratar soja com calor, e o custo varia de R$ 55,00 a R$70,00 por tonelada de grão. Os gastos são influenciados, principalmente, pela grande estrutura que se requer para produzir um produto de boa qualidade. No mercado sul-americano existem sistemas de baixo custo, porém a exposição à fonte de calor não é uniforme, podendo resultar em um produto com ampla margem de variação quanto a seus constituintes nutritivos e quanto à inativação das proteínas inibidoras da tripsina, afirma.
A tripsina é uma enzima que se encontra normalmente no estômago, e é usada no processo digestivo. Quando a soja não tratada com calor é usada para alimentar animais monogástricos, como aves e suínos, as proteínas antinutritivas do grão se aderem à tripsina no aparelho digestivo, produzindo uma enzima ineficaz que compromete a digestão. Estas proteínas antinutritivas são conhecidas como inibidoras da tripsina. E se esta não for efetiva, será mais secretada pelo pâncreas, implicando num aumento de volume deste órgão, explica Burchard.
O tratamento da soja com calor afeta tanto a proteína como os carboidratos (açúcar), resultando em uma desnaturalização parcial da proteína e tornando mais eficiente a digestão em aves e suínos. Além disso, de acordo com o nutricionista, são incrementados o conteúdo de energia metabolizada e a absorção de gordura.
Burchard também cita a melhor palatabilidade, o maior tempo de armazenamento e a melhor compactação no momento de produzir pellets (pílulas que facilitam o transporte e utilização do produto pelas indústrias) como vantagens obtidas através da tecnologia. Estudos produzidos na Inglaterra compararam os valores energéticos para aves alimentadas com grão de soja, tratado de diferentes maneiras. Enquanto a soja crua forneceu 1600 kcal/kg do grão, a soja termotratada forneceu 3750 kcal/kg (kcal: kilocaloria).
Mais leiteNo caso de ruminantes, e especialmente vacas leiteiras de alta produção, os suplementos protéicos com alta energia que são resistentes à degradação ruminal podem ser de grande utilidade para suprir energia e aminoácidos extras, necessários para uma alta produção de leite no início da lactação. Segundo o nutricionista, o grão de soja tem uma quantidade adequada de proteína e energia que permite, do ponto de vista do custo e produção, satisfazer as necessidades nutritivas dessas vacas.
Porém, a proteína presente na soja integral crua é degradada rapidamente na flora ruminal. Por isso o tratamento com calor é tão eficiente: o processo permite aumentar a qualidade da proteína que escapa na degradação ruminal (proteína de by pass), e por sua vez, manter-se a integridade nutritiva da soja. O produto termotratado é indicado na produção de leite, avicultura e suinocultura.
A tecnologia para submeter os grãos de soja a este tipo de tratamento será lançada na América Latina no próximo dia 11, durante a 37ª Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina. A apresentação será feita por Javier Burchard, que estará divulgando também os custos do equipamento e formas de aquisição. O preço ainda depende da definição das taxas de importação, explica Shirley Buzinhani, que será a representante no Brasil da tecnologia desenvolvida no Canadá.
Segundo Shirley, os problemas causados na Inglaterra pela vaca louca (Mad Cow Disease) levaram à proibição, na Europa, do uso de alimentos de origem animal na dieta de bovinos. Também nos Estados Unidos esta proibição está praticamente efetivada, daí a procura por uma fonte alternativa e eficaz de alimentação.
O fato do Brasil ser o segundo maior produtor mundial de soja favorece o lançamento desta tecnologia de ponta por aqui. E Londrina, segundo Shirley, foi estrategicamente escolhida por estar próxima dos países do Mercosul, que também estarão presentes na 37ª Exposição Agropecuária e Industrial.


