Dorico da SilvaO pesquisador José Tadashi Yorinori calcula que as perdas nesta safra podem chegar a 20%Algumas lavouras da região Norte do Estado estão exalando um cheiro forte de soja ‘‘cozida’’. É o fenônemo conhecido como escaldadura, provocado pelas altas temperaturas do solo registradas desde o início da safra. Na fase de germinação e desenvolvimento o calor cozinhou as raízes e agora prejudica a formação de grãos.
O potencial de rendimento da soja este ano está comprometido em grande parte das lavouras das regiões Norte, Noroeste e Oeste do Paraná, em algumas regiões de São Paulo e Mato Grosso, onde as altas temperaturas e chuvas irregulares reduziram o porte das plantas.
As perdas podem variar de 10% a 15%, índice que corresponderia ao aumento de produção previsto nesta safra em função do aumento de área plantada, podendo chegar a 20% se a estiagem continuar. ‘‘Com isso não deve haver o recorde de produção esperada’’, analisa o pesquisador José Tadashi Yorinori, do Centro Nacional de Pesquisa de Soja da Embrapa, que esteve nos últimos dias visitando várias lavouras no Estado, e tem recebido telefonemas de várias regiões do Brasil, de produtores e técnicos preocupados com o aparecimento de doenças e baixo desenvolvimento das plantas.
TempoAs lavouras no Norte do Estado sofrem com altas temperaturas e chuvas irregulares
SurpresaOs produtores não esperavam enfrentar este tipo de problema nesta safra. A pesquisa havia alertado mais para a possibilidade de ocorrência de oídio, uma doença que prejudicou várias áreas na safra passada, danificando 5 milhões de hectares em lavouras do Cerrado ao Rio Grande do Sul. Mas o oídio não apareceu, porque precisa de temperaturas amenas para sua proliferação.
Com a ocorrência do fenômeno El Ninõ a previsão era de mais chuvas, tempestades e não se esperava que as temperaturas chegassem a subir tanto. Tadashi informou que em algumas áreas do Mato Grosso, a temperatura do solo atingiu 80 graus.‘‘Especilistas da área de meteorologia divulgaram recentemente que desde l860 o Planeta não registrava temperaturas tão altas’’, comenta Tadashi.
‘‘Em diversas áreas a soja não cresceu o suficiente, entrando no período de floração mais cedo, com 35 a 40 dias, e está com 30 a 50 centímetros de altura’’, comenta Tadashi. Este porte pequeno significa baixo potencial de rendimento, dificultando inclusive a colheita, pois as vagens estão muito baixas, fora do alcance das colheitadeiras.
O produtor Devanir Bianco está preocupado com seu plantio e deve antecipar a colheita, para tentar salvar parte da produção
Algumas áreas no Centro, Oeste e Sul do Paraná foram beneficiadas por mais umidade, e lavouras localizadas em áreas mais altas ou cultivadas no sistema de plantio direto também sofreram menos.
DoençasA estiagem, as altas temperaturas e a escaldadura prejudicam todo o Norte e Oeste do Paraná, onde estão plantados 60% da soja do Estado. A primeira consequência da escaldadura é a morte imediata da planta, necessitando do replantio, como foi feito em várias lavouras. Em áreas onde a planta resistiu, parte de suas raízes ficaram danificadas e, portanto, mais suscetíveis a diversas doenças.
O pesquisador Tadashi explica que a raiz danificada favoreceu o desenvolvimento do fungo de solo macrophomina, que invade a raiz enfraquecida. É um tipo de micose interna que ocorre na granação, quando a soja mais precisa da raiz. ‘‘Cada grão suga o que pode da planta-mãe, e quando não recebe o que precisa, não se desenvolve bem’’, compara Tadashi.
Grãos mal-formados e pequenos devido à falta de chuva no período em que mais precisavam
Vários tipos de doenças menos comuns na soja estão aparecendo este ano, provavelmente pela debilidade das plantas. O míldio, que foi confundido com o oídio, apareceu em várias lavouras. O ácaro também apareceu em algumas áreas, além da cochonilha branca. Para o míldio, o pesquisador diz que não compensa fazer aplicações, e para outros problemas o produtor deve analisar bem a situação, antes de gastar com aplicações de qualquer produto. ‘‘Em São Paulo houve uma incidência seríssima de mosca-branca’’, completa Tadashi.
Na região de Guaíra, no Oeste, alguns produtores tiveram perdas de 100% provocadas pelo calor. O pesquisador alerta que, para as doenças que normalmente são esperadas no final do ciclo, o produtor não deve fazer aplicações preventivas antes análisar o estágio de desenvolvimento das vagens.
O produtor Devanir Bianco, que cultiva soja há na região de Londrina, diz que não se lembra de coisa parecida ter acontecido na soja. Ele semeou 240 hectares de soja em áreas diferentes nos meses de outubro e novembro, e informa que o desenvolvimento das plantas está muito ruim. ‘‘Além de granação fraca, os grãos estão muito pequenos’’. Sua previsão era colher depois do dia 20 de fevereiro, mas se a estiagem continuar, vai colher no início da próxima semana, para tentar salvar uma parte da produção.
O produtor Hélio Turquino comenta que, no Mato Grosso do Sul,a situação também está muito grave. Ele cultiva aproximadamente 200 hectares, próximo da cidade de Eldorado, e está colhendo antes das plantas começarem a entrar em colapso. ‘‘Não tivemos problemas de doenças, mas a produção teve uma quebra bem significativa’’, reclama.
O pesquisador Tadashi informa que muitos produtores têm ligado para a Embrapa, perguntando se este problema poderá ser coberto pelo Proagro. A orientação dada pelo pesquisador é para os produtores procurarem informações na Emater, bancos ou empresas onde fizeram o financiamento. ‘‘Há diferentes tipos de contratos e o produtor deve verificar se tem algum item sobre este aspecto. Em princípio, entendo que problemas climáticos como este deveriam ter a cobertura’’, finaliza Tadashi.

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