Colheita pequena, preços baixos e altos custos de produção desanimam os cafeicultores paranaenses, que estão enfrentando a maior crise de sua história. Para Ricardo Strenger, presidente da Associação dos Cafeicultores do Paraná (Apac), a crise é na estrutura de produção, e nunca, historicamente, o café teve preços tão baixos.
Na opinião do agrônomo do Departamento Nacional do Café, Francisco Barboza, esta situação deve se prolongar até o próximo ano, e a cafeicultura paranaense deverá recuar em área já na próxima safra.
A colheita desta safra de café no Paraná está praticamente encerrada.
Segundo dados do Departamento de Economia Rural da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento, estima-se que a produção deste ano atinja no máximo 500 mil sacas de grão beneficiado, colhido na área que restou das geadas do ano passado. A produção normal do Estado deveria ser de 2,9 milhões de sacas.
Uma solução imediata depende do apoio do governo estadual, pois o governo federal não fará nenhum programa específico para atender as necessidades do Paraná, comenta Barboza. Ele estima que de 15 a 20 mil hectares sejam erradicados até o final do ano, principalmente de lavouras mais velhas. A safra paranaense que representava no ano passado 8% da safra brasileira, este ano correspondeu a apenas 2%.
Crise é geral A crise do café por falta de preços remuneradores não está acontecendo apenas no Paraná. Segundo Barboza, em Minas Gerais e São Paulo a situação também é bastante complicada, porque os produtores pegaram mais crédito, e estão mais endividados do que os cafeicultores paranaenses.
A primeira florada dos cafezais nas últimas semanas não melhorou o ânimo dos produtores. '' A safra paranaense no ano que vem deve ser maior, mas os preços podem até ser mais baixos do que este ano'', alerta Barboza.
Na avaliação de Ricardo Gonçalves Strenger, presidente da Associação dos Cafeicultores Paranaenses (Apac), os produtores sempre enfrentaram crises conjunturais por causa do clima e o outros problemas, mas a crise atual é estrutural e sem precedentes. Hoje o café fino no Paraná está cotado a R$100 a saca, o mais baixo preço praticado até hoje na história do café. ''Se considerarmos a alta do dólar que reflete nos insumos, estamos também na época de custo mais alto, o que cria uma situação insustentável para o produtor'', argumenta.
Desde 1995, quando a estrutura de produção foi alterada, o mercado de café está sendo abastecido de maneira contínua, com o crescimento do café robusta na Ásia. ''Países da Ásia foram estimulados a produzir o café robusta, que vem sendo misturado pela indústria ao arábica, reduzindo custo e qualidade, e consequentemente o consumo'', comenta.
Nova ordem no mercado mundial Ricardo Strenger explica que a nova estrutura mundial de produção faz com que haja um excesso de produção do café robusta, que é de baixa qualidade e reduzido custo de produção.
A produção atual é dividida da seguinte maneira: uma concentração de café arábica no Brasil, Colômbia, Guatemala, México e Honduras, que juntos detêm 70% da produção mundial. Os outros países produtores como Vietnã, Costa do Marfim, Indonésia, Uganda e Índia detêm 80% da produção mundial do robusta.
''Com produção bem dividida e concentrada, as indústrias têm ficado livres para fazer qualquer tipo de mistura no café. E estão misturando em quantidades cada vez maiores o robusta e menores do arábica'', informa Strenger.
Esta nova estrutura de produção fez com que se alterasse o preço do produto. No passado o arábica comandava o preço e beneficiava o robusta. Hoje o robusta puxou o arábica para baixo, explicou Strenger.
Rotulação A principal proposta da Apac para enfrentar a crise atual é a rotulação do café. Ricardo Strenger defende a identificação no rótulo da quantidade de arábica e robusta, tipo, bebida e origem do café por país ou região, para informar o consumidor sobre a qualidade do produto, e com isso elevar o consumo. ''O consumidor está sendo enganado. Paga um preço final de café arábica, e bebe um café de péssima qualidade, que pode até prejudicar sua saúde'', comenta.
Segundo Strenger, o café arábica tem como características o aroma, sabor, paladar, baixos índices de cafeína e alto custo de produção. O robusta, ao contrário, não tem sabor, não tem aroma e nem paladar, tem alto índice de cafeína e baixo custo de produção.''No passado, o café robusta era misturado ao arábica em quantidade muito pequenas, mais ou menos, 5%. Hoje, estatisticamente, a adição feita pela indústria tem sido em média de 50%'', informa. ''O resultado é baixa qualidade do café, inibindo o consumo, pela limitação fisiológica de consumo de cafeína'', completa.
A mistura do robusta ao arábica está prejudicado os produtores dos dois lados. Preço baixo para quem produz arábica e também para o robusta.
A produção do Vietnã saltou de 95 para hoje, de 3,6 milhões de sacas para 14 milhões. Com projetos financiados pelo BIB e custos baixíssimos de mão-de-obra, este crescimento de produção jogou os preços do café no mercado mundial para baixo, o que pode invializar a cultura em muitas regiões do Brasil.
Vontade política Para o presidente da Apac é preciso vontade política do governo para transformar as novas políticas cafeeiras. ''A política cafeeira de hoje é secular, enquanto a cafeicultura mudou muito, sendo composta em grande parte de pequenos produtores. O preço justo para a produtor seria de US$ 80 a US$100 a saca'', destaca.
Strenger comenta ainda que é preciso ordenar o mercado. ''O agronegócio do café movimenta US$ 60 bilhões por ano. Deste total apenas US$ 5,4 bilhões (9%) ficam com o produtor; a logística fica com US$ 9 bilhões (15%); indústria, US$ 20,4 bilhões (34%) e traders US$ 25,2 bilhões (45%). O café é o produto de maior peso nas exportações barsileiras, respondendo por 33% do mercado mundial do grão.

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