Com 8 mil mil quilômetros de costa e mais de 5 milhões de hectares de águas represadas, sem contar os lagos das usinas hidrelétricas, o Brasil é um dos países com maior potencial para a produção de pescado através da aquicultura, mas essa produção ainda é considerada baixa e sem estrutura. A maior preocupação dos pesquisadores é a falta de uma legislação que regulamente o setor. Essa deficiência coloca em risco a atividade, devido à movimentação sem controle de espécies entre as regiões produtoras.
Dados levantados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), mostram que hoje existem mais de 36 mil criadores em todo o País. Como a maior parte é de pequenos proprietários, que não têm condições de investir alto, a produção acaba ficando abaixo da média potencial. A área alagada passa de 50 mil hectares, e a produção de pescado em geral chega a 40 mil toneladas ao ano. Somente de peixes são 33 mil toneladas.
Sem normas A produtividade média, em torno de 2,4 mil quilos/hectare/ano, representa menos da metade do potencial de áreas de criação comercial. Na região Sul, o Paraná é o Estado com maior potencial instalado para a aquicultura. São 19 mil criadores que produzem 32,8 milhões de alevinos e 9,9 milhões de quilos de peixes ao ano. Um estudo apresentado durante o seminário ‘‘Aquicultura para o ano 2000’’, realizado em novembro do ano passado em São Carlos (SP), mostra que falta estrutura em todo o segmento para garantir ao Brasil uma produção compatível com as condições de criação e de mercado.
Técnicos de todo o País, reunidos em São Carlos há mais de um ano, listaram uma série de requisitos para a melhoria da aquicultura brasileira. Entre as principais, está a introdução da aquicultura como atividade de produção agropecuária sustentável; melhorar a formação de técnicos, planejar o crescimento da criação com base nas condições regionais de recursos naturais, e regulamentar totalmente o setor. Hoje, explica o professor Gilberto Cezar Pavanelli, presidente da Associação Brasileira de Patologistas de Organismos Aquáticos (Abrapoa), não existem regras para o comércio e criação de alevinos e peixes, o que coloca em risco a atividade.
Doenças Ele ressalta que a água é o meio mais propício para a proliferação de doenças, principalmente as que atacam os peixes. Com o crescimento desordenado da atividade, muitas doenças antes ‘‘confinadas’’ em algumas regiões, hoje são encontradas em vários pontos. Outro fator que tem preocupado os pesquisadores é a necessidade de criação de peixes em tanques. Confinados, os peixes passam a apresentar ainda mais problemas, seja pela forma de criação ou pela ausência completa de um trabalho preventivo.
Segundo Pavanelli, com a proliferação desordenada dos pesque-pague, o comércio de alevinos cresceu de uma hora para outra, sem um estudo de viabilidade técnica ou mesmo uma regulamentação para o setor. ‘‘Hoje os peixes viajam livres de uma região para outra, sem necessidade de nenhum atestado, levando muitas vezes doenças até então inexistentes em grandes áreas de potencial pesqueiro’’, lamenta ele. Outro fator apontado para o crescimento do ataque de doenças é a falta de um manejo adequado da criação.
Pavanelli diz que a mudança de ambiente, a superlotação dos tanques comuns em pesque-pague, a alteração da temperatura da água e até a falta ou excesso de alimentos, acabam influindo no aparecimento e ataque de doenças. A introdução de espécies exóticas ao ambiente também contribui para o aparecimento e proliferação das doenças. ‘‘O problema é eliminar a doença depois de instalada em uma região’’, alerta Pavanelli.
Prevenção Ele garante que a prevenção é o melhor caminho, inclusive com custos mais baixos. Para evitar o aparecimento da doença, apesar da falta de uma regulamentação que evite o transporte e criação sem critérios, o ideal é o tratamento dos alevinos que chegam ao criatório. Com produtos de baixo custo e facilmente encontrados no mercado, o criador pode garantir a sanidade dos peixes. Pavanelli cita entre os produtos indicados o formol e o sal grosso, que garantem a sanidade e evitam poluir o ambiente.
O criador deve ter ainda um tanque para quarentena, mantendo os alevinos em observação por um período. ‘‘Com técnicas simples é possível evitar o aparecimento e a proliferação das doenças, o que sai muito mais barato’’, diz Pavanelli. Caso os peixes apresentem alguns tipos de doenças, a única saída é eliminar a criação, fazer a desinfecção dos tanques e começar tudo de novo. ‘‘O que vai custar bem mais para o criador’’, alerta.

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