Que ninguém se iluda, porque a liberação da principal região de pecuária de corte do Brasil, o Centro-Oeste, para exportações de carnes consideradas livres de aftosa, ‘‘com vacinação’’, não significa que o País vá sair por aí vendendo imediatamente, ou que aumentará em muito, a curto prazo, suas exportações.
A decisão da Organização Internacional de Epizootias (OIE), anunciada quarta-feira em Paris, é apenas a derrubada de uma barreira frente aos muros que se levantam e serão erguidos contra os países grandes produtores – porém pobres – de alimentos, na estratégia de internacionalização imposta pelas nações ricas.
Exemplo: os Estados Unidos exportam mais carne bovina do que o Brasil. Os americanos engordam seus bois em grande parte do tempo nos estábulos, devido ao inverno e outras intempéries. Por que haveriam de permitir aos brasileiros atirar no mercado internacional sua carne in natura do boi de capim, se essa carne seria muito mais barata?
Possuidor do maior rebanho bovino comercial do mundo, o Brasil seria um sério competidor no mercado global, principalmente considerando que seu mercado interno não tem poder aquisitivo para absorver a maior parte da sua produção de carnes. Assim, barreiras à parte, precisará competir mesmo em preços e, principalmente, com os interesses, que poderiam ser contrariados em um regime de livre concorrência, de americanos e canadenses.
Por outro lado, técnicos do BNDES analisam que as oportunidades de abertura de novos canais de exportações, incluindo, além da carne, outros produtos agrícolas, parece ser uma tendência inexorável, com a entrada das cadeias varejistas internacionais. A internacionalização do varejo dos alimentos está acontecendo de forma rápida, e esta situação poderá permitir a colocação de produtos brasileiros em países nos quais os grandes grupos se encontrem presentes.
Um exemplo é a comercialização de melões produzidos por empresas nordestinas que passaram a ser fornecedoras da rede Carrefour, onde recebem o selo de ‘‘garantia de origem’’ dessa organização, com validade para as lojas da rede situadas em 21 países. Esse poderá ser também o destino da carne bovina no mercado externo: produto de poucas megalojas de varejo. Uma estratégia de mercado terá que procurar saber quanto o produtor levará nessa globalização, seja carne, melão, ovos ou laranja.
No aspecto mercadológico parece que o Brasil está mesmo disposto a ‘‘vender seu peixe’’, e tem falado a moderna linguagem do marketing. Vamos fazer uma campanha agressiva de marketing, para difundir as vantagens da carne brasileira. O mesmo já está sendo feito com frutas, e há pouco foi lançada a campanha para divulgar as qualidades do café que sai das lavouras do maior produtor mundial. Já era tempo de se partir para uma agressividade nessa área da produção: se o Brasil tem o maior rebanho comercial de bovinos do mundo; se é o maior produtor de café e um dos maiores produtores de frutas tropicais, é só vender...‘‘Basta’’ oferecer e competir.
O autor é editor da Folha Rural.

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