Brasil não está blindado de crise mundial
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quarta-feira, 02 de abril de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Subprimes: esta palavrinha é a responsável pela crise que atingiu os Estados Unidos, economia mais poderosa do mundo, e acendeu o alerta em todas as outras economias mundiais, inclusive a brasileira, cujo governo bradava aos quatro cantos o bom momento e a blindagem a influências externas. Os empréstimos para a compra da casa própria (subprimes) eram uma operação de risco, que estavam sujeitos a calotes, o que acabou acontecendo, resultando na quebra de bancos importantes e desacelerando a economia norte-americana.
Uma das possíveis conseqüências desta cadeia de acontecimentos é o estouro da bolha de commodities, produtos como grãos e minérios negociados nas bolsas de mercadorias, que podem sofrer quedas significativas nos preços. A redução do consumo interno norte-americano pode provocar uma redução na importação destes produtos, desequilibrando a balança comercial de outros países. Um exemplo é o volume de soja exportado pelo Brasil. Como o País exporta cerca de um bilhão de sacas todos os anos, a desvalorização em um dólar no preço do produto faz com que US$ 1 bilhão deixe de circular na economia brasileira.
As commodities agrícolas e metálicas sustentaram o saldo positivo da balança comercial brasileira nos últimos anos, compensando inclusive o redução no valor do dólar. Nos últimos 12 meses, produtos como a soja e o trigo tiveram o preço duplicado ou até triplicado, mas na últimas semanas pós-crise alguns destes produtos tiveram desvalorização superior a 20%, a maior queda em um curto período dos últimos 50 anos.
Para o superintendente técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil (CNA), Ricardo Cotta, a redução foi apenas um ajuste, já que os fundamentos de oferta e procura continuam sólidos e devem manter os preços das commodities agrícolas em um patamar elevado. O que causou esta queda foi a saída de capital especulativo para fundos menos arriscados. Não acredito em quedas acentuadas para um futuro próximo, ou seja, vamos continuar vivendo em patamares de preços agrícolas acima das médias históricas, seguramente, afirma Cotta.
Já o Banco Central prevê turbulências mais intensas nos mercados internacionais nos próximos meses e, com a queda no desempenho da economia norte-americana, outros países vão execer papel ainda mais determinante na economia global. Nesse cenário, o desempenho das demandas domésticas na Europa e no Japão, assim como na China e nas demais economias emergentes de grande porte, passa a desempenhar influência crescente para as condições gerais do comércio internacional e do crescimento do produto mundial em 2008, diz uma nota publicada pelo órgão.
Na avaliação da doutora em Economia Márcia Regina Gabardo, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a previsão é de que a economia brasileira sofra as conseqüências da crise norte-americana, e alguns pontos de fragilidade já estão ficando visíveis. O quadro hoje é muito mais grave do que há um ano atrás. Se esta crise americana realmente contaminar, assim como as crises dos países em desenvolvimento contaminaram nos anos 80 e 90, o setor agroindustrial vai ser um dos primeiros a sofrer retração. Começa com os preços, depois atinge a produção, o consumidor, todo o ciclo , analisa a economista.
A saída para atenuar os efeitos da crise, segundo Gabardo, é voltar as atenções para outros mercados. Países como China e índia têm carregado as exportações do agribusiness. Em outros períodos, ninguém imaginaria os preços que até três, quatro meses atrás, você atingia com a maior parte dos nossos produtos no mercado internacional. Nós temos vantagens competitivas excepcionais, mas a partir da redução do crescimento internacional, certamente vamos sofrer barreiras.
Na opinião da economista, o Brasil conseguiu vários avanços nos últimos anos
no que se refere à sustentabilidade, mas as conquistas ainda não são suficientes para que o governo brasileiro adote o discurso de que estamos blindados com relação a uma crise como a enfrentada pelos Estados Unidos. Até dois, três meses atrás, o governo se dizia blindado por ter mais de
US$ 170 bilhões disponíveis em reserva. Mas isso é algo que pode ser facilmente esgotado diante de uma crise, questão de meses. No início dos anos 90, tínhamos cerca de US$ 3 bilhões em divisas e precisávamos recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Hoje conseguimos alguns avanços como legitimidade, credibilidade. Nossa política econômica conseguiu conquistar o mercado internacional, atraindo recursos, entrada de mercado de capitais e indústrias multinacionais. Apesar disso tudo, não dá para dizer que estamos blindados a uma forte crise internacional. (Com informações da Agência Brasil)


