Brasil exporta tecnologia para os EUA
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sexta-feira, 13 de julho de 2001
Cláudia Barberato De Londrina 
O sistema de plantio direto e suas tecnologias complementares, como adubação e rotação de culturas adotadas no Brasil são um exemplo para o resto do mundo. A afirmação é do agrônomo e especialista na área de solos do National Soil Dynamics Laboratory, de Alabama, nos Estados Unidos, Wayne Reeves, que esteve em Londrina para o Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, na semana passada. Ele disse que a adaptação de tecnologias brasileiras tem auxiliado produtores americanos no desenvolvimento de uma agricultura sustentável.
Reeves citou exemplos como o sistema de rotação de culturas e a adubação de cobertura, práticas que fazem parte do sistema de plantio direto desenvolvido no Brasil. O exemplo brasileiro contribui para a preservação do meio ambiente e traz lucratividade aos agricultores, resultando na chamada agricultura de sustentabilidade.
Importância da rotação A experiência no Brasil, por exemplo, já mostrou aos americanos que é preciso ter um sistema de manejo de solo que permita alcançar boa produtividade sem afetar o ambiente admite Reeves. Para fazer um manejo sustentável nos trópicos e sub-trópicos, de acordo com o agrônomo, é preciso ter um sistema de manejo do solo que fixe o caborno mais rapidamente.
Uma boa estratégia de rotação de culturas garante sequência adequada de plantas de renda junto com plantas de cobertura que promovem essa captura de carbono. O reflexo disso será sentido na cultura comercial depois da rotação, com maior rendimento.
A rotação, para o agrônomo, é um grande desafio do plantio direto. O sistema de cultivo não significa apenas plantar sem revolver o solo. Esse conceito, de acordo com Reeves, é um erro de muitos técnicos e agricultores em diferentes regiões dos Estados Unidos.
Uma das coisas que aprendi no Brasil, conta Wayne Reeves, é que somente deixar de arar o solo não é suficiente para manter um sistema sustentável. É preciso desenvolver um manejo contínuo de culturas. Sempre tendo plantas crescendo para capturar o carbono na maior quantidade possível. Mas não existe receita pronta. O uso desses princípios varia de acordo com tipo de solo, nível de fertilidade e sistema de produção. Pode variar de região para região e até de uma propriedade vizinha de outra.
Contribuição brasileira Reeves conta que no Meio-Oeste americano houve um declínio nas áreas de plantio direto neste último ano em função de erros na rotação de culturas. O uso contínuo de milho e soja a cada safra trouxe grande quantidade de pragas e doenças.
Mas a taxa de adoção no Sudeste está aumentando. Os agricultores dessa região, além de adotarem o plantio direto também estão caprichando na rotação e no plantio de adubos de cobertura. Aprendemos que algodão depois de algodão, por exemplo, não é sustentável.
As áreas de algodão, cultura mais cultivada no Sudeste, recebem adubação com centeio, trevo encarnado, ervilhaca peluda e até o trigo. Além do algodão, os agricultores do Sudeste dos Estados Unidos têm plantios comerciais de amendoin, milho, trigo e soja.
A novidade este ano é o uso da aveia preta antes do cultivo do algodão. A variedade, chamada de soilsaver (salvadora de solos), foi desenvolvida a partir de sementes da Iapar 61, uma variedade de aveia desenvolvida pelo Instituto Agronômico do Paraná, instalado em Londrina.
Maior rendimento Os melhores resultados da rotação com aveia foram antes do algodão (ficando entre 8% e 15%), do amendoin e por último na soja. Esse resultado, de acordo com Reeves, foi possível graças a uma contribuição da pesquisa brasileira. A partir da Iapar 61, uma variedade de aveia preta usada como adubo verde e na rotação, foi possível desenvolver a soilsaver.
Reeves veio pela primeira vez ao Brasil há 10 anos, para convênios com as Embrapa Trigo e Soja, Universidade Federal do Paraná, Instituto Agronômico do Paraná, Federação do Plantio Direto na Palha, entre outros. De lá para cá já retornou mais nove vezes e numa dessas viagens levou sementes da Iapar 61, conta o pesquisador do Iapar Ademir Calegari.
Das sementes da Iapar 61, foram selecionados os materiais mais resistentes a baixas temperaturas. Essa variedade, destaca o pesquisador brasileiro, também tem boa produção de biomassa. Depois de seis anos de seleção o material foi lançado no final do ano passado. A soilsaver suporta até 12 graus abaixo de zero, o que para o agricultor americano é muito importante.
Outra vantagem está na mineralização do nitrogênio para o solo que a aveia proporciona; melhor do que o centeio que é usado normalmente como cultura anterior ao algodão, afirma Calegari.
A aveia, segundo o agrônomo americano mostrou que recicla e libera mais rápido o nitrogênio para o solo para as culturas seguintes e isso tem ajudado no aumento de rendimento, que somou até 15% a mais em algumas áreas.
O manejo da soilsaver é feito com herbicidas e rolo-faca, outra tecnologia levada do Brasil, lembra Calegari. Wayne Reeves conta que uma indústria dos EUA já está fabricando o equipamento, que antes foi testado por fazendeiros americanos. O uso do rolo-faca, segundo o americano, reduz a utilização de herbicidas para o manejo da aveia e plantio da cultura seguinte.
Preocupação com ambiente Segundo o agrônomo, o Congresso americano está estudando mudanças na legislação para a agricultura, o que normalmente acontece a cada seis anos. A lei, que até agora sempre garantiu suporte na comercialização dos produtos, de acordo com Reeves, deverá contemplar a prática de uma agricultura mais sustentável, não só para as commodities, mas para todos os cultivos.
Segundo o agrônomo, essa mudança é uma reivindicação da sociedade e dos próprios agricultores. Hoje, nos Estados Unidos, apenas 2% da população está na zona rural. Mas a população da zona urbana, que consome os alimentos produzidos no campo, está cada vez mais exigente, pedindo produtos mais saudáveis e preocupada em garantir a preservação do ambiente. Se as mudanças forem aprovadas, e deverão ser, vamos ter grandes mudanças na agricultura americana, não relacionadas com a produção, mas com a proteção do meio ambiente.


