Brasil engatinha em uso de armazéns na fazenda
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Fábio Galiotto <br> Reportagem Local 
Apenas 15% da armazenagem de grãos é feita em fazendas no Brasil, de acordo com dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). O baixo índice contrasta com o de outros grandes produtores de grãos mundiais, como Canadá (80%), Estados Unidos (65%) e Argentina (40%).

O governo federal chegou a lançar no passado o PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns), por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), com juros abaixo do mercado. No entanto, o uso não chegou a decolar.
A professora e pesquisadora da UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso) Solenir Ruffato defende que uma das soluções para aumentar a receita é fazer a armazenagem na fazenda. "O produtor precisa entender que ele não é um produtor rural, mas um empresário agrícola. Ele não tem uma fazenda, mas uma empresa agrícola. Nunca teremos uma solução 100% favorável, mas talvez isso diminua esse caos no País em termos de volume de armazenagem."
Ela afirma que, quando um agricultor brasileiro tem um produto de alto valor agregado em mãos, corre para entregar para uma empresa por receio de ter perda de qualidade. Assim, nem sempre consegue o melhor negócio e chega até mesmo a ter pesos e medidas diferentes em relação ao maquinário, por exemplo. "O grande produtor da minha região costuma perguntar qual é o maior trator, a maior semeadora, e encomenda logo várias. Quando falamos de ele adquirir uma unidade armazenadora, a reação dele é de susto, porque só olha cifras e não visualiza como investimento. E a depreciação de uma estrutura dessas [silo] é muito menor do que a de uma máquina."
O presidente da Abrapós (Associação Brasileira de Pós-Colheita), Marcelo Alvares de Oliveira, faz apenas um alerta. "Tenho um pouco de receio, mesmo sendo interessante ter o armazenamento em fazenda. É preciso aumentar, mas com mais treinamento e contratação de profissionais que conheçam a armazenagem para evitar perdas."
LEIA TAMBÉM
-Para além do alimento
-Exaustão com iluminação reduz custos e pragas
SILOS-BOLSA
Por outro lado, tem aumentado no País, principalmente na região Centro-Oeste, o uso de silos-bolsa, uma alternativa mais barata do que os tradicionais armazéns estáticos. Criado no Canadá na década de 1990, o custo do sistema é cerca de dez vezes menor do que a de uma estrutura fixa, mas não é o mais adequado para todos os casos.
A professora da UFMT afirma que o preço por um silo-bolsa de 60 metros, para armazenar cerca de 200 t de grãos, vai de R$ 1,5 mil a 2 mil. "É barato para quem tem o maquinário, claro, porque o conjunto de embutidora e extratora custa mais de R$ 100 mil", diz Ruffato.
A estrutura fixa não precisa do mesmo conjunto de equipamentos e tem a vantagem de durar várias safras. O silo-bolsa não pode ser reutilizado, o que não significa que não deva ser considerado pelo produtor. "No Mato Grosso, é ideal para o milho, que já vem seco da lavoura para a unidade armazenadora e já pode ser embutido. Para a soja, e isso varia de estado para estado por causa do clima diferente, mas para épocas como essa, quando o milho chega e a estrutura convencional está cheia de soja, coloca no silo bolsa", afirma Ruffato.
A professora conta que há relatos de produtores que chegam a guardar milho por mais dois anos em silo-bolsa, sem grandes perdas. "Porque não há perda zero. As quebras técnicas ocorrem tanto no sistema convencional, que é o silo graneleiro, como também no silo-bolsa. Mas, seguindo as recomendações, serão mínimas."
Nesse tipo de sistema, a armazenagem é hermética, sem a entrada de oxigênio. Como o grão é um ser vivo e respira, com o tempo consome o oxigênio, libera o gás carbônico e acaba com as condições de sobrevivência de fungos e insetos. Se não houver a renovação do ar por meio do rompimento da lona, as condições ideias permanecem.
O silo-bolsa também é indicado em casos emergenciais, até que a unidade armazenadora principal seja liberada dos grãos recebidos anteriormente. "Em tempo de safra se guarda a soja ou o milho úmido no silo bolsa para, quando tiver alívio na unidade armazenadora, pré-processar esse produto com mais critério e cautela", explica Ruffato. (F.G.)


