Brasil discute melhoria do setor
Os técnicos e pesquisadores envolvidos com o setor leiteiro dos três Estados do Sul do País estiveram reunidos esta semana em Maringá, para debater as estratégias do Projeto Plataforma, que visa estruturar o setor. O projeto do Ministério da Ciência e Tecnologia, envolvendo todos os segmentos de pesquisa, ensino e extensão do Brasil, levará o debate em torno do segmento leite por regiões. Reuniões similares à de Maringá foram realizadas também no Nordeste, Centro-Oeste e no Norte.
O principal objetivo do projeto é identificar, caracterizar e priorizar o desenvolvimento da pecuária leiteira em todo o País, respeitando as realidades regionais, diz o agrônomo Duarte Vilela, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa do Gado Leiteiro, da Embrapa, sediado em Juiz do Fora (MG).
Organizar por regiãoAs reuniões por região, segundo ele, detectarão as prioridades conforme a realidade de cada local, e também respeitarão a grande importância que a pecuária leiteira tem em todo o Brasil. Queremos desenvolver programas cooperativos em parcerias com todo segmento envolvido, visando atingir as regiões produtoras, explica. Até há dois anos o que existia na área de leite eram programas locais, sempre atendendo núcleos de produtores espalhados por microrregiões. A meta agora, conforme Vilela, é atacar os problemas por regiões.
O programa visa desenvolver projetos com a presença do máximo de setores da cadeia produtiva, do produtor a indústria, informa. Para Vilela a pecuária leiteira do Brasil apresentou um avanço muito grande nos últimos quatro anos, tanto no segmento da produção como na indústria.
O problema é que a cadeia produtiva do leite é uma das mais complexas e esse crescimento se deu de forma desorganizada. Por isso o primeiro passo do projeto é ter uma visão completa do segmento, levantando o setor por regiões. A maior preocupação hoje, segundo Vilela, é com a produção, que é o elo mais fraco da corrente leiteira. Para acabar com o problema a intenção é fazer estudos regionalizados. Até agora os problemas do Nordeste eram colocados no mesmo nível do Sul, o que dificultava a busca de soluções para ambos os casos, explica ele.
ParceriasPara demonstrar uma das muitas diferenças do leite em todo o País, Vilela cita o preço praticada em cada Estado ou região. Isso acaba mostrando até a desorganização da cadeia e a fragilidade da produção, diz. A idéia do projeto é organizar grupos de trabalho por região, envolvendo técnicos, pesquisadores, empresas, produtores e até consumidores, para elaborar programas sólidos, que viabilizarão a organização de todos os segmentos.
Contando com a contrapartida dos parceiros já aliados, o Projeto Plataforma tem cerca de R$300 mil. Vilela ressalta, no entanto, que apenas um projeto cooperativo da região Centro-Oeste, incentivado pelo Plataforma, envolve mais de R$1,2 milhão para desenvolvimento da produção regional.
A idéia é identificar as prioridades em conjunto, acionar os setores envolvidos e mostrar a necessidade de programas de incentivo, como vem ocorrendo em algumas regiões. Podemos desenvolver um cadeia de projetos em parcerias que cheguem a investimentos suficientes para colocar a cadeia produtiva em ordem e acima de tudo competitiva, afirma.
O programa foi criado há dois anos pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), e até o próximo ano deve resultar em projetos práticos na área de produção. Até agora os recursos eram aplicados de forma aleatória, por falta de informações, e vamos acabar com isso, promete.
Crescimento e qualidadeO veterinário Luiz Augusto Pfau, responsável pelo setor leiteiro da Emater no Paraná, explica que a atividade gera muito emprego e tem apresentado um crescimento nos últimos dois anos. Com a globalização e a abertura de mercado existe necessidade do produtor acompanhar essa mudança e uma preocupação muito grande hoje com a qualidade, afirma.
Pfau lembra que o primeiro passo para garantir espaço no mercado é estruturar a propriedade. Os agricultores envolvidos com leite estão investindo. O primeiro passo, revela, é comprar resfriadores. Essa tem sido a principal tecnologia adotada para melhoria de qualidade dentro das propriedades, conta ele.
Muito antes disso, no entanto, os criadores passaram a investir na qualidade do rebanho. Pfau revela que o governo incentivou a melhoria dos animais, e agora junto com as empresas tem melhorado o processamento do leite. As proprias indústrias têm interesse que a propriedade possua um processador para a coleta a granel, garantindo a manutenção do leite por mais tempo. O consumo do leite longa-vida, nos últimos anos, está levando as empresas a investir no setor.
A produtividade no Paraná, segunfo Pfau, tem também melhorado. Mas está longe de ser a ideal. Ele diz que a maior parte dos produtores são pequenos, com entrega média na faixa de 100 litros por dia. O produtor precisa buscar melhoria de produtividade, aconselha. O poder público tem investido na seleção e inseminação de animais, o que já apresenta resultados. Pfau diz que o rebanho ainda é muito cruzado, há deficiência de alimentação e a produtividade está baixa, em torno de sete litros por vaca ao dia.
A média está acima da nacional, mas ainda é pouco. Comparada com a Argentina, que chega a 12 litros no gado de pasto, é muito pouco para competir, compara.
CompeteitividadePara o agrônomo Paulo Mhlbach, professor do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o criador gaúcho é o mais afetado pelo Mercosul. Ele explica que as regiões produtoras do Uruguai estão mais próximas dos centros consumidores do Rio Grande do Sul do que as áreas leiteiras do próprio Estado. O Sul, continua ele, tem uma característica de pequenas propriedades e precisa se reestruturar para ter produção suficiente, para competir com os fornecedores de países vizinhos.
Em média cada propriedade leiteira gaúcha produz 40 litros por dia, o que é pouco para um mercado competitivo. Precisamos um salto para pelo menos 300 a 400 litros por propriedade, para viabilizar o setor, compara Mhlbach. Para isso, segundo ele, é preciso que os pequenos se estruturem e também que o sojicultor passe a investir na pecuária de leite. Os que têm estrutura podem alcançar resultados isoladamente, mas os que dependem de apoio a saída é a união, aconselha. Mhlbach cita ainda a grande mudança ocorrida no setor leiteiro do Rio Grande do Sul. Ele explica que até há alguns anos dominava o sistema de produção em cooperativas. Com a entrada de grandes empresas o setor passou por transformações. Hoje o leite gaúcho está nas mãos da iniciativa privada.
Mhlbach acha que o setor dominado por grandes empresas pode ser uma forma de competir em condições de igualdade no Mercosul, apesar dos riscos. A expectativa dos produtores, segundo ele, é a possibilidade de entrada de empresas uruguaias e argentinas no processamento do leite gaúcho. Com as empresas vem também a tecnologia, acredita. Ele diz que hoje a Argentina e o Uruguai tem uma estrutura de produção melhor, que pode ser trazida para o Brasil.Duarte Vilela, pesquisador do CNPGL da Embrapa, defende a união do setor leiteiroMarcos Zanatta





