A realidade vivida no dia a dia da pecuária extensiva de corte alterna momentos de tranquilidade, quando os bois estão no pasto, com períodos de extrema agitação, quando é preciso realizar algum manejo com o gado. Tanto para os homens, que ali trabalham, como para os animais, essa lida diária é caracterizada pelo trabalho duro e, muitas vezes agressivo, que coloca homens e animais sob estresse e riscos de acidentes. Além disso, sem que se note claramente, há prejuízos no resultado econômico da atividade.
As considerações são do professor Mateus Paranhos da Costa, da Unesp de Jaboticabal (SP), que há alguns anos pesquisa a qualidade total no manejo adequado de bovinos de corte. Os resultados representam um alerta para muitos pecuaristas que ainda não estão atentos ao que essa rotina menos agradável do cotidiano nas fazendas pode representar para a produtividade de seu negócio.
Segundo o professor, muitos pessoas consideram como normal uma situação que mais parece uma batalha entre o tratador e o animal. Atividades como apartar, identificar, vacinar, descornas, casquear, curas de lesões, entre outras, têm sido conduzidas de forma equivocada, num manejo inadequado, com ações agressivas que condicionam os animais a terem medo dos seres humanos e das áreas de manejo. De acordo com outro pesquisador da Unesp, Marcos Chiquitelli Neto, é possível desenvolver um manejo adequado dos animais e obter resultados melhores em produtividade. ''O segredo é usar o bom senso no trato com o gado'', avisa Chiquitelli.
O manejo racional e adequado de bovinos de corte, no que chamam de ambiência animal, tem sido tema de estudos na Unesp desde os anos 90. Foi iniciado a partir de dados do Fundepec, de São Paulo, que apontavam altos índices de hematomas em carcaças bovinas provocados, muitas vezes, pelos maus tratos a que estavam sujeitos os animais na fazenda, no transporte e no curral de pré-abate das indústrias. De lá para cá já foram realizados treinamentos a campo para comparar resultados dos manejos convencional e racional.
''O objetivo sempre foi orientar um manejo com os animais mais humano e, portanto, correto,'' explica Chiquitelli. De lá para cá os pesquisadores têm sido convidados frequentemente para abordar o assunto, um tema que, até então, nunca foi muito considerado em pecuária. Parte do trabalho dos pesquisadores da Unesp também foi apresentado a técnicos e pecuaristas de Londrina, em abril, durante a exposição agropecuária.
De acordo com a pesquisa, a figura do antigo ''vaqueiro'' que tratava do gado e tinha mais identificação com os animais, aos poucos foi cedendo lugar para um tipo de tratador que encara o trabalho de uma maneira rude. Em alguns casos a relação passou a ser provação de forças e não de eficiência e, com isso, em muitos casos, tornou-se até violenta. ''O animal responde de acordo com o estímulo que lhe é dado,'' avalia Chiquitelli. ''Quem já não viu numa fazenda os tratadores laçando, derrubando e amarrando um animal no meio do pasto, numa cena que mais parece uma batalha, '' completa o veterinário José Renato Santos, de Paranavaí, que também participou de uma etapa do estudo da Unesp.
Cenas de ''batalha'', segundo o veterinário, poderiam ser evitadas com o uso, por exemplo, do tronco de contenção, uma ferramenta que hoje fica sub-dimensionada em muitas propriedades. ''Numa descorna ou casqueamento, por exemplo, o uso do tronco, além de evitar machucar o animal na hora de imobilizá-lo, garante higiene no trabalho, evitando risco de contaminação que se tem com o animal deitado no chão.''
Chiquitelli explica que parte do estudo da Unesp diz respeito ao uso do tronco de contenção para vários manejos com os animais. O tronco, segundo ele, é uma ferramenta importante que quando bem usada facilita o trabalho na fazenda como a vacinação dos animais. Mas ele avisa que o bom trato significa também boa comida, água, sombra e outros manejos que garantam saúde aos animais e um ambiente propício que não afete sua produção.

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