No início dos anos 1970 fui morar com meus tios no Bairro Limoeiro, em Londrina. Era adolescente ainda, eles tinham um sítio que fazia fundos com o Ribeirão Limoeiro. No começo do ano chovia muito, o ribeirão transbordava suas águas pelo pasto e pela plantação de arroz. Também as águas das chuvas que desciam dos morros, formavam poças e pequenos riachos que desaguavam no ribeirão. Mas o impressionante era a quantidade de peixes que existia naquela época.

De madrugada, ainda muito escuro, minha tia me chamava para levantar, pegar a peneira de café, os baldes e ir para a margem do ribeirão armar a peneira e pegar os bagres, mandis e outros peixes que subiam durante a noite e desciam na madrugada, antes do sol nascer. Eu era muito medroso, tinha um medo tremendo do escuro e tentava enrolar minha tia até o dia clarear um pouco. Mas não tinha jeito. Ela era muito firme comigo.

Então eu levantava, pegava as coisas e saia de madrugada, às vezes chovendo, por aqueles pastos sem farolete, sem nada para clarear o caminho e a cada barulho no mato eu me arrepiava todo. Chegava na beira do ribeirão armava a peneira e somente ouvia o barulho dos peixes caindo. Colocava dentro dos baldes e havia dia que enchia dois ou três baldes.

Quando clareava o dia, sai com meus primos e tio pelo pasto e encontrava grande quantidade de peixes que não conseguiam sair dos buracos quando a água baixava. Impressionante que a maior quantidade de peixes eram encontrada somente naquele espaço de sítio dos meus tios. Sitiantes vizinhos vinham pescar ali. Foi uma época de muita felicidade: as águas eram limpas, não havia poluição e quando dava sede chegava até a tomar aquela água que ficava empoçada no pasto.

Já contei para muitas pessoas essas aventuras, mas poucos acreditam. Se naquela época tivéssemos registrado com fotos, hoje poderia recordar aqueles grande momentos de alegria e felicidade. Os tempos mudaram. Hoje as crianças e adolescentes não terão muita coisa para relembrar quando chegar na velhice. As chuvas parecem estar mais escassas, o Ribeirão Limoeiro diminuiu muito, suas águas - as que restam - estão poluídas, os peixes acabaram. Só restam lembranças, saudades de uma época EM que éramos muito felizes e não sabíamos.

Antonio José Rodrigues, leitor da FOLHA

mockup