Mário CesarColheita da safra de verão 96/97, no Norte do Paraná Há apenas alguns anos o plantio de milho no inverno era encarado com receio tanto pela pesquisa como pelos produtores, que não conheciam muito bem o comportamento da cultura nos meses frios do ano. Com o aumento do consumo do grão por parte das indústrias de rações e a falta de incentivo ao plantio do trigo, a safrinha acabou se tornando uma boa opção para o agricultor. Principalmente para aquele disposto a seguir as recomendações técnicas, que diminuem os riscos inerentes ao cultivo fora de época.
‘‘O plantio da safrinha sempre foi visto com cuidado por causa das possibilidades de seca, geada e aumento de pragas na safra de verão. Além disso, a disponibilidade de dinheiro (crédito) para o plantio de trigo não justificava a opção pelo milho no inverno’’, diz o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e gerente executivo da Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio (Fapeagro), José Gomes. Ele lembra que, nos últimos anos, as indústrias de sementes investiram muito na pesquisa em busca de cultivares com maior sanidade, contornando, de certa forma, o problema da maior incidência de doenças.
Dorico da SilvaConsciênciaJosé Gomes: produtores estão mais conscientes da necessidade de investir em tecnologia
Paralelamente, a pesquisa se empenhou em criar os modelos de cultivo que devem ser praticados para aumentar as chances de sucesso. ‘‘Hoje em dia a maioria dos produtores está consciente dos perigos de não seguir as recomendações técnicas. Muitos, inclusive, já estão fazendo financiamento sem Proagro’’, observa.
Bom negócioPara José Gomes, se o produtor fizer todo o trabalho de acordo com o recomendado, tendo em mente que mais do que produzir, é preciso produzir com qualidade, a safrinha vale a pena. Basicamente, os cuidados são plantar o mais cedo possível (de preferência semear ao mesmo tempo em que se colhe a soja); usar sementes melhoradas, que tenham comprovadamente bom comportamento na região (e não decidir apenas pelo preço); fazer a distribuição adequada das sementes (de três a quatro por metro linear e dar um espaço de 90 centímetros entre linhas) e usar a velocidade adequada de plantio, mesmo que esteja meio tarde.
O pesquisador também recomenda atenção para o perigo de infestação de pragas. ‘‘Embora não seja uma época de grande competição com ervas daninhas, cabe ao produtor analisar se vale a pena fazer controle com herbicidas. Em muitos casos dá para usar dosagens menores’’, afirma. Finalmente, Gomes lembra a importância de uma adubação adequada.
Tratar a safrinha com a mesma atenção dedicada à safra normal faz com que a produtividade alcançada fora de época seja cada vez mais satisfatória. Mas José Gomes acha difícil comparar os resultados obtidos nas duas safras, pois naquelas regiões em que o plantio de milho no inverno está bem estabelecido - como no Oeste do Paraná e no Vale do Paranapanema - não se planta milho no verão. São locais tradicionais na produção de soja.
Warren NabucoNa safra de verão já existe um padrão de produtividade, embora, como na atual safra, fenômenos negativos possam ocorrer
Outro aspecto que dificulta a comparação, de acordo com o pesquisador, são as disparidades da safrinha. ‘‘Na safra de verão, existe um padrão de produtividade para cada região, ou seja, existem as médias regionais nas quais a gente se baseia. Já a safrinha é caracterizada pelos constrastes. Ao lado de áreas bem conduzidas tecnicamente, existem outras que não recebem os cuidados necessários. E isto é determinante para a produtividade do plantio fora de época.’’
Boa expectativaSegundo Gomes, alguns agricultores já estão conseguindo produtividades que chegam a 3/4 daquela alcançada na safra normal. Na região de Primeiro de Maio, por exemplo, chegou-se a cerca de 82 sacas por hectare. E a tendência, com a entrada no mercado de novos materiais, específicos para a safrinha, é melhorar estes resultados.
Também existe a expectativa de que produtores de ponta, que colhem muito bem no verão, passem a optar pela safrinha, elevando os níveis de produtividade. O pesquisador do Iapar não descarta a possibilidade de semear milho sobre milho. Mas frisa: ‘‘Para isso, o material de plantio deve ter boa sanidade.’’

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