Boi verde tem que respeitar a natureza
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sexta-feira, 31 de agosto de 2001
Cláudia Barberato<BR>De Uberlândia (MG) 
Além de criar o boi a pasto, alimentado com capim e outros vegetais e sal mineral, a pecuária brasileira tem outro desafio a vencer para tornar-se efetivamente reconhecida no mundo como fornecedora de uma carne saudável. É preciso produzir com sustentabilidade, sem agredir o meio ambiente, usando solo, ar e água racionalmente. Não se pode falar na produção do boi verde, por exemplo, sem que se adote manejos produtivos respeitando a natureza e a legislação ambiental do País. A sociedade urbana, grande consumidora do que é produzido no campo, está preocupada e cobra esta postura do setor. Outro desafio é mudar a visão que essa sociedade tem da atividade, como extrativista e devastadora.
Esse foi o tom da palestra do agrônomo Marcelo Martins Pinto, vice-presidente da associação mineira dos engenheiros agrônomos, durante o 3º Encontro Nacional do Boi Verde, realizado entre os dias 23 e 25 de agosto em Uberlândia (MG). O evento, que reuniu 750 pessoas, entre pecuaristas e técnicos do setor de várias regiões do País, foi uma realização do Sindicato Rural de Uberlândia (MG) em parceria com a Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), Federação da Agricultura de Minas Gerais (Faemg) e Embrapa.
Produzir dentro da lei A atividade agropecuária, segundo Marcelo Pinto, por ocupar grandes extensões, foi uma das atividades que mais gerou impactos ambientais, especialmente na abertura de novas fronteiras para compensar a queda na produção agrícola. Hoje, parte do setor está preocupado em mudar esta imagem. ''Daí surgiram as produções ditas primeiro como alternativas e que já ganham a aprovação da sociedade urbana, como o boi verde, a produção orgânica, e outros.''
''Esse tempo de desmatamento desenfreado e sem regras tem que chegar ao fim, não só para maior eficiência da atividade, mas também porque toda a sociedade está cobrando isso do setor. Hoje é fundamental a questão de respeito ao meio ambiente e ao conforto dos animais. Ou se respeita ou se está fora do mercado. A produção do boi verde já é um primeiro passo para se enquadrar nas leis ambientais e ofertar um produto mais saudável,'' afirma Marcelo Pinto.
O produtor rural que hoje não se enquadrar na legislação ambiental pode ser severamente punido, pela legislação, e até excluído do mercado, pela sociedade, considera o agrônomo. ''A agropecuária é a bola da vez. Cada vez mais o setor de fiscalização do Estado se organiza para cobrar da agricultura um maior controle ambiental. Embora os dois maiores poluentes das bacias hidrográficas ainda sejam as indústrias e o esgoto das cidades, hoje compara-se a poluição difusa do setor rural com esgotos e efluentes industriais. E o tratamento da lei é o mesmo para os dois setores''.
Cobrar políticas públicas Embora a agropecuária tenha que trabalhar com as mesmas leis e regras ambientais que são exigidas para indústrias urbanas, segundo Marcelo Pinto, no campo não há investimentos em políticas públicas para controle ambiental por parte do poder público.
''O setor produtivo pode cobrar essas políticas dos governos, a exemplo do que a sociedade urbana faz com saneamento básico, por exemplo'', sugere o agrônomo. Segundo Marcelo Pinto, os produtores devem não só trabalhar dentro da lei como esclarecer a população da cidade de como é feita a produção de alimentos no campo. ''O setor precisa ocupar seu espaço e mostrar à sociedade que a agropecuária constituti a base produtiva de qualquer nação, possibilitando sua independência econômica e estratégica, e o crescimento dos demais setores da economia. Para isso, muitas vezes, precisa de maior apoio do que tem tido.''
Mudança da imagem Marcelo Pinto acredita que os produtores rurais devem adotar um gerenciamento na propriedade para aliar produção de alimentos e controle ambiental. ''É importante fazer um manejo conservacionista em todas as explorações da propriedade, com aplicação racional de insumos e matérias-primas.''
Paralelo a este trabalho, aconselha o agrônomo, o setor agropecuário precisa mudar a visão que a sociedade urbana tem da atividade. ''Só assim será possível aumentar o consumo interno e abrir mercados para a carne brasileira fora do País.''
Segundo Marcelo Pinto, a sociedade urbana hoje representa 3/4 da população do País e tem o maior poder de decisão na hora de aprovar um produto no mercado. ''A população urbana considera o setor agropecuário como uma atividade desmatadora, contaminadora das águas, criadora de erosão, assoreadora dos mananciais de água, exterminadora de fauna e geradora de incêncidos florestais. Além disso, muita gente pensa que o setor vive de subsídios, referindo-se a décadas passadas, quando o financiamento rural era subsidiado.''
Essa visão negativa do setor, na opinião de Marcelo Martins, vem contribuindo para maiores encargos sobre o produtor rural. ''Se permanecerem os paradigmas atuais e o conformismo da classe produtora, a tendência é de um completo desprestígio. É preciso a adequação ao processo de desenvolvimento sustentável, uma vez que não se concebe mais a manutenção de uma atividade que gere poluição e, consequentemente, reduza a qualidade de vida do planeta. O produtor brasileiro tem que se acostumar com essa obrigação se pretende ganhar mais espaço no mercado consumidor. E mais ainda, produzir dentro da legislação ambiental que vigora no País e provar que se está produzindo dentro da lei.''
A jornalista viajou a Uberlândia (MG) a convite do Sindicato Rural de Uberlândia.


