Boa fase do nelore veio para ficar
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sexta-feira, 11 de abril de 2003
Reportagem Local 
Dez anos atrás, o tributarista Jairo Dias, de São Paulo, comprou um sítio de 30 alqueires, em Promissão, para o pai ''se distrair'' e colocou lá 13 ''vaquinhas'' marchigiana e um touro. Pouco tempo depois, ao acompanhar o tio num leilão de gado em São Paulo, ficou deslubrado com a beleza do nelore. Desde aquele dia não parou de comprar animais de alta linhagem, vencedores de exposições. Começou arrematando o melhor plantel de Zancaner, em Araçatuba. É um inovador. Não gosta de falar do que possui, mas é dono dos melhores reprodutores marchigiana do Brasil; tem 40 vacas doadoras da raça nelore e cerca de 400 vacas jovens de pista. E um portentoso rebanho secundário e resultados de cruza industrial.
Os pecuaristas atribuem a grande alavancada do gado nelore a dois fatores marcantes. Em primeiro lugar, à ousada aquisição, em 1999, da vaca mais cara do mundo, a Amália da Santa Alice. Foi arrematada em leilão de Uberapa por R$ 392 mil. Comprador, Jairo Dias.
Em segundo plano, à valorização do boi verde, diante do problema da vaca louca na Europa.
Jairo concorda, hoje, que aquele lance, foi um divisor de águas no mercado de nelores, levantando o moral e a liquidez do setor. A vaca tinha sido 22 vezes campeã. Para se ter idéia, vacas top, de alto padrão,tinham preços variando entre R$ 40 mil e R$ 50 mil. Mas Amália era excepcional, única - garante.
''A vaca é fora de série, mas o mérito não é meu, ela já estava pronta. Apenas sou a pessoa que comprou; poderia ter sido outro fazendeiro'', desconversa Jairo. Enquanto isso, Amália da Santa Alice se prepara para o leilão de maio, em Uberaba, onde desfilará para outro outro dono. Valor previsto: R$ 1 milhão.
Pés no chão, Jairo tem consciência que para prosperar tem que investir. Mas isso é muito linear para as ambições dele. Tem que investir em genética e inovar sempre no manejo. A pecuária mudou muito, insiste em dizer. ''Não adianta ter 20 mil cabeças no pasto e não dar conta de controlar doenças''. É melhor ter um rebaho pequeno mas com produtividade. Hoje, além do processo de melhoramento você tem que cuidar bem. Um casco mal feito inflama e o boi pára de comer, reduzindo o ganho de peso.
Outro mito que a tecologia e a competição do mercado se encarregaram de derrubar é o referencial de riqueza. Não se diz mais que alguém é rico porque tem 100 mil bois no pasto. Isto não é referencial para aferir competência nem riqueza. É melhor ter um 500 cabeças bem cuidadas, competitivas, boas conversoras de carne - aconselha.
A carne brasileira mudou muito nos últimos cinco anos. E vai longe mesmo o tempo que se vendia boi com 22 arrobas. Isto não existe mais, tem que ser menos de 17 arrobas. E picanha de 5 quilos não pode ser boa, deve ser muito dura. A peça deve ter no máximo 2 quilos.
Ex-dono de frigorífico, Jairo não pouca crítica ao setor na parte técnica. A carne, às vezes é dura porque não leva o tempo necessário para resfriamento; a carne maturada é macia porque é submetida a resfriamento, coisa que a indústria não faz porque a atual condição de abate não comporta. Mas vai chegar o momento em que o mercado vai exigir e quem produz alimentos, seja ele vegetal ou animal, tem que agir segundo aspirações do consumidor.
Dono dos melhores touros marchigiana do Brasil e um dos melhores plantéis de fêmeas nelore, Jairo aposta no crescimento do mercado. Ele acha que a carne brasileira de exportação vai encostar nos preços praticados hoje na Europa. ''Dentro de cinco anos vamos verder a arroba da carne por 50 dólares; a UE vende por 60 dólares''.
O mercado interno vai reagir logo. A arroba do boi chega em outubro por mais de R$ 70,00/arroba. Quem quiser qualidade tem que pagar o que é justo. Mas a melhoria dos preços tem que passar pelo avanço no processo de melhoramento da qualidade.
O grande referencial de qualidade hoje é a disponibilidade de vacas doadoras, de alto padrão, afirma. Jairo vem conferindo qualidade ao seu plantel desta forma, ''adquirindo animais ganhadores, o que há de melhor nas vitrines das exposições'', por exemplo.
Presença garantida nas grandes exposições do País, Jairo compra animais caros, que se valorizam ainda mais depois de passar pelo seu criatório - como reconhecem outros pecuaristas. Mas não faz isto por diletantismo, é uma questão empresarial e uma profissão de fé no melhoramento genético, principalmente da raça nelore.


