Um grupo de 14 famílias de Centenário do Sul, no Norte do Paraná, se prepara para realizar a primeira colheita de algodão em terras próprias. Ex-arrendatários, eles formam a Associação de Produtores Doutor Evandro de Sá Pereira e foram os primeiros beneficiados do Paraná pelo programa Banco da Terra, que viabiliza a compra de propriedades rurais através de financiamento com juros de 5% ao ano.
Oito meses após a assinatura do contrato, o grupo prevê colher cerca de 500 arrobas de algodão por alqueire, superando a média de 300 arrobas constatada na região. A expectativa positiva se explica pela excelente qualidade da terra onde se localizam as propriedades, aliada ao apoio técnico oferecido pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e a experiência agrícola dos integrantes da associação.
Cada família recebeu lotes de aproximadamente 10,7 hectares (ha), totalizando uma área de 151 ha. O financiamento de cerca de R$ 40 mil vai ser pago em 20 anos, com vencimento da primeira prestação no terceiro ano após o fechamento do contrato.
No total, o programa do governo federal investiu R$ 560 mil na região. Cada agricultor também financiou cerca de R$ 12 mil pelos programas Paraná 12 Meses e Pronaf, cujos recursos foram investidos na instalação de infra-estrutura, preparo e conservação do solo, plantio do algodão e a construção das casas.
Exigências A responsável pela inclusão do grupo entre os beneficiados do Banco da Terra foi Ivone de Fátima Silva, presidente da associação Doutor Evandro e da Associação de Produtores e Arrendatários de Centenário do Sul. Insatisfeita com as incertezas da vida de arrendatária, que não oferece garantias de trabalho e ainda prevê o pagamento de 25% da renda para o proprietário, ela começou a buscar alternativas para o problema enfrentado por sua família. Ao tomar conhecimento da existência do Banco, se mobilizou para formar o grupo e elaborar o projeto solicitando o benefício.
Para integrar o programa, é preciso comprovar experiência mínima de cinco anos na atividade agropecuária e ser trabalhador rural não proprietário, preferencialmente assalariado, parceiro, posseiro ou arrendatário. De acordo com a engenheira agrônoma Fátima Medeiros, secretária de Agricultura de Centenário do Sul, pequenos proprietários também podem ser atendidos, desde que possuam área comprovadamente insuficiente para gerar renda capaz de prover o sustento próprio e dos filhos.
A formação de um grupo com cinco a 15 famílias é outra exigência do Banco da Terra. A responsabilidade da seleção fica a cargo dos próprios agricultores, que também precisam sugerir uma propriedade rural para ser comprada e apresentar um documento comprovando que o proprietário tem intenção de vender a área. Em Centenário do Sul, as 14 famílias foram selecionadas entre 600 interessados, com ajuda de técnicos da Emater.
CaféSe não chover muito, a previsão é iniciar a colheita do algodão em uma semana. Em maio, eles pretendem começar o plantio do café, que deve ocupar metade da área de cada propriedade. ‘‘Plantamos algodão no verão para a terra não ficar parada enquanto as mudas do café estão sendo preparadas. Nas próximas safras, pretendemos continuar plantando algodão e outras culturas no espaço que não for ocupado pelo caf钒, explicou Ivone.
As mudas estão sendo cultivadas no viveiro da prefeitura de Centenário. Segundo o engenheiro agrônomo Sérgio Lopes, da Emater, a idéia original previa a instalação do viveiro em uma área comum entre as propriedades. Porém, como os agricultores estavam muito envolvidos com a lavoura, o município decidiu apoiar o trabalho plantando as cerca de 400 mil mudas.
A área comum da associação abriga reuniões e futuramente será utilizada para o desenvolvimento de projetos relacionados a agroindústria e algumas culturas específicas.
EmpregoAlém de permitir a aquisição das propriedades pelos ex-arrendatários, o financiamento do Banco da Terra possibilitou a criação de novos empregos. Cerca de 20 pedreiros foram empregados na construção das casas das famílias e quando começar a colheita de algodão, a previsão é que sejam contratados aproximadamente 100 bóias-frias, que terão ocupação garantida por pelo menos dois meses.
Para Ivone, a necessidade de criar uma associação para conseguir o benefício também trouxe efeitos positivos. ‘‘Como compramos tudo junto, desde sementes e insumos até material de construção, conseguimos melhores preços’’, informou.
Segundo a presidente, a experiência deu tão certo que a Associação dos Produtores da cidade está preparando um projeto para pleitear o benefício para mais 35 famílias. ‘‘É reforma agrária de primeiro mundo, porque o financiamento não dá condições para apenas comprarmos a terra, mas também para iniciarmos a produção’’, comentou. -
EspeculaçãoA secretária de Agricultura de Centenário do Sul afirmou que a maior dificuldade enfrentada pelo grupo de 35 famílias que também está tentando o financiamento pelo Banco da Terra é encontrar terras disponíveis na região. De acordo com ela, o projeto do governo só financia até R$ 7,5 mil por alqueire, mas muitos proprietários, empolgados pela venda da fazenda que hoje abriga os 14 associados da Doutor Evandro, estão superfaturando o preço de suas propriedades.
‘‘No ano passado, a média de preço praticada na região ficava em torno de R$ 8 mil, mas hoje, tem gente pedindo até R$ 10 mil. Este preço inviabiliza novos projetos’’, disse. Ivone acrescentou que por outro lado, muitos proprietários evitam vender suas fazendas para o Banco da Terra porque temem a demora do pagamento pelo governo.

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