Como produzir maior quantidade de álcool sem aumentar o volume de matéria-prima empregada ou modificar significativamente o processo produtivo? A bióloga Gisele de Andrade Nóbrega, professora do departamento de Biologia Geral da Universidade Estadual de Londrina (UEL), encontrou a resposta para essa questão na biotecnologia. Modificando geneticamente uma linhagem de levedura utilizada para transformar açúcar em álcool, ela conseguiu aumentar em quatro vezes o poder de fermentação da substância, em ambiente de laboratório.
O melhoramento do fungo Saccharomyces cerevisiae, conhecido como levedura, foi objeto de pesquisa de sua tese de doutorado desenvolvida na Universidade de São Paulo (USP), sob a orientação da professora Elisabete José Vicente. O trabalho foi concluído em setembro deste ano. Seu objetivo é contribuir para aumentar a produtividade do álcool etanol utilizado como combustível.
Pesquisa
Gisele conseguiu potencializar o processo de fermentação do açúcar para obtenção do etanol usando técnicas de melhoramento genético. Para chegar ao resultado final, estudou duas linhagens de levedura, uma delas produzida em laboratório e outra largamente utilizada nas usinas. Em ambos os casos, a bióloga pesquisou as regiões do DNA que ativam os genes responsáveis pela fermentação, chamados de promotores.
Ela confirmou que os promotores da linhagem utilizada industrialmente são bem mais fortes que os da similar de laboratório. Com esse dado em mãos, selecionou um promotor especialmente eficiente e, dando seguimento à pesquisa, constatou que esse fragmento de DNA poderia ser inserido em leveduras com menos poder de fermentação, porém mais adaptadas à produção industrial de álcool.
A professora também conseguiu sequenciar e caracterizar o DNA do promotor em questão. A vantagem é que no futuro, essa informação estará disponível para outros pesquisadores que venham a trabalhar com o tema. ''Com o sequenciamento, também será possível utilizá-lo em laboratório, facilitando a produção da levedura em escala industrial'', avaliou.
Condições reais
A próxima etapa da pesquisa será avaliar a atividade do promotor em condições reais de produção de álcool. A intenção é investigar em que escala acontecerá o aumento de produtividade.''Acredito que na usina, onde o ambiente é ideal para a produção, a proporção de fermentação aumente mais que as quatro vezes identificadas em laboratório'', analisou.
A tecnologia só deverá estar disponível para escala industrial daqui há quatro ou cinco anos, após a conclusão da segunda parte da pesquisa. Gisele lembrou que a levedura melhorada é um organismo geneticamente modificado (transgênico) e por isso, precisa de autorização para ser liberado no Brasil. Porém, como será empregado para produzir combustível, e não alimentos, ela acredita que não haverá problemas para aprovação.
Bebidas
Apesar da levedura ser usada na fabricação de cerveja, vinho, cachaça e outras bebidas, Gisele não sabe se a introdução do mesmo promotor nas leveduras utilizadas nesses processos de produção aumentariam a fermentação, a exemplo do que acontece com o combustível. De qualquer maneira, acredita que o princípio utilizado por ela possa ser adotado para nortear outras pesquisas com objetivo de melhoramento genético.

mockup