Bicho estranho no campo do Brasil
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sexta-feira, 25 de abril de 1997
Josiane Schultz para Folha Rural 
Milton DóriaPaciênciaJurandir Barrozo e as avestruzes: negócio demora longo prazo, para dar retornoEles estão apostando na perspectiva da estrutiocultura tornar-se um investimento rentável no País. Originários da África, os avestruzes têm grande potencial comercial. Deles aproveita-se quase tudo: a carne, as plumas, o couro, a gordura, a carcaça e os ovos - quando não vingam são utilizados como peças artesanais.
Segundo a diretora técnica da NovAvis Avestruzes do Brasil, de Bragança Paulista, Laura Luchini, o mercado para essas aves é promissor, inclusive no Brasil, onde a produção ainda está na fase inicial. O consumo da carne de avestruz no País é pequeno e são poucos os estabelecimentos comerciais que oferecem o produto, que ainda é importado. Mas o Brasil é, por exemplo, um dos maiores importadores de plumas. Só as escolas-de-samba brasileiras importam cerca de 20 toneladas de pluma por ano, conta Luchini.
TendênciasLaura Luchini acredita que, com o crescimento do plantel brasileiro, a tendência é aumentar o consumo de carne e de outros produtos de avestruz. Os produtores brasileiros ainda têm tempo. Enquanto se desenvolve o plantel, os produtos dessa ave passam a ser conhecidos e assim se estabelece um mercado, diz. Para exemplificar, ela conta que nos Estados Unidos a criação comercial de avestruzes teve início nos anos 70. Mas só em 94 a carne e o couro produzidos naquele país começaram a ser comercializados.
No Brasil o plantel de avestruzes ainda é pequeno - cerca de 2 mil animais. A fase agora é de procriação e de instalação de novos plantéis. O empresário londrinense, Jurandir Barrozo, viu na estrutiocultura um grande negócio, mas a longo prazo. Há quatro meses ele arrendou um hectare de terra para instalar uma pequena criação, com 16 avestruzes.
Por enquanto não estou tendo retorno econômico. No Brasil, o que o produtor tem feito mais agora é investir e o lucro que pode ter é com a comercialização de filhotes, conta. Os investimentos para instalar a criação são altos. Cada filhote de avestruz, tanto nacional quanto importado, custa em média R$ 1,5 mil.
Nos EUA a comercialização da carne de avestruz começou 24 anos após o início da criação da ave
Manejo e rentabilidade Nos primeiros meses as aves devem ser criadas em piquetes limpos e cercados por telas. Depois, a criação pode passar para pastos. Para Barrozo, existem diversas dificuldades. Por ser novidade no País, ainda não existe mão-de-obra especializada. Falta know-how, argumenta. Apesar disso, ele vê vantagens na criação. Uma delas é a área a ser destinada ao plantel. As aves ocupam cerca de mil metros por casal. É uma área pequena, se comparada ao espaço exigido por outros animais.
Outra vantagem também é o custo de produção - cerca de R$ 16 reais por ave/mês. A idade de abate é 12 meses, quando o avestruz alcança de 100 a 150 kg. O rendimento de carne por animal é baixo, cerca de 30% do peso vivo, mas se compararmos com a produtividade dos bovinos, a estrutiocultura compensa, afirma Barrozo. Segundo ele, cada fêmea de avestruz produz em média 30 filhotes por ano. No caso dos bovinos, esse número cai para um por ano e o abate é feito quando o animal atinge 2 ou 3 anos.
A criadora Laura Luchini explica que a maioria dos avestruzes dos plantéis brasileiros são importados. Por serem consideradas aves silvestres, no momento da importação o Ibama tem que se pronunciar. A autorização de importação, entretanto, é dada pelo Ministério da Agricultura e do Abastecimento. Essas aves vêm principalmente da Namíbia e dos Estados Unidos. Durante os 30 primeiros dias no Brasil, os avestruzes ficam sob observação. Eles também vêm acompanhados de um certificado dos governos de origem, atestando que não têm doenças, explica Luchini. Esses cuidados são necessários, porque o avestruz pode ser portador de patologias que atingem as aves brasileiras.
ProdutosA carne de avestruz tem baixo teor de gordura e qualidades nutricionais superiores às outras carnes. Ela é vermelha e se assemelha à carne bovina - em consistência, mas com sabor mais suave. O preço praticado nos países que têm o hábito de consumir a carne da ave é cerca de 20% maior.
Segundo Jurandir Barrozo, de Londrina, no Brasil apenas alguns restaurantes oferecem o produto. Em lojas de importados, a carne já foi encontrada a R$ 60 o quilo. A carcaça é utilizada na fabricação de ração animal e a gordura é usada como base no preparo de cremes e pomadas.


