BHC pode provocar até câncer
Uma fábrica desativada de compostos organoclorados em Duque de Caxias (RJ) colocou em risco uma comunidade inteira a Cidade dos Meninos que em breve deverá ser removida para outra área. Os estudos comprovaram que a exposição prolongada ao veneno colocou em perigo sobretudo as crianças. No Brasil, este é o exemplo mais trágico conhecido até agora dos danos provocados por este tipo de agrotóxico. No Paraná, não se tem notícia de situação semelhante mas há casos que servem de alerta.
A chefe do serviço de Vigilância do Câncer relacionada ao Trabalho e ao Ambiente no Instituto Nacional de Câncer (Inca), Silvana Rubano, explica que o maior risco dos organoclorados está no fato deles se acumularem nos organismos vivos. No caso do homem e outros animais, o composto se concentra nas partes mais gordurosas. O acúmulo pode resultar em doenças crônicas como o câncer de mama por exemplo ou provocar situações agudas como lesões graves na pele ou sintomas respiratórios, destaca.
No caso da Cidade dos Meninos, os problemas mais sérios foram encontrados nos mais jovens, porque os organoclorados simu-lam o comportamento de alguns hormônios. No caso das crianças, mesmo não tendo sinais aparentes, devem ser acompanhadas porque uma das coisas associadas são problemas como dificuldade de engravidar ou baixa contagem de espermato-zóide, elenca Silvana.
A coordenadora do Centro de Controle de Intoxicações (CCI) do Hospital Universitário (HU) de Londrina, Conceição Turini, atesta que os casos envolvendo organoclorados não são comuns desde que foram proibidos. Os casos mais comuns de intoxicação envolvem os organofosforados, que têm toxicidade aguda bem maior, informa.
Autor da lei, o deputado Luiz Eduardo Cheida afirma que um estudo do Centro de Tecnologia de Alimentos da Universidade Estadual de Londrina da década de 1990 mostrou traços de BHC no leite de uma mulher de Londrina. Pesquisas mais recentes, feitas com leite cru, também constatou a existência de moléculas de agrotóxicos, dentre eles organoclorados.
Mesmo assim, tanto Silvana Rubano, do Inca, quanto Conceição Turini, do HU, concordam que no caso do Paraná não seria necessário avaliar todos trabalhadores que residem em propriedades onde exista BHC estocado. Vai depender de como estes compostos estão armazenados. Se o inseticida estiver em tambores, dentro de galpões e não sofreram a ação do tempo, não há necessidade. Se o composto tiver sido espalhado no quintal ou o local de armazenagem é usado para outros fins aí existe um risco maior. A avaliação clínica, portanto, depende do tipo de exposição e de sua continuidade, conclui a farmacêutica do Inca. (L.A.)





