‘‘Pava da GV’’, uma bezerra de pouco mais de oito meses, é a grande sensação da Fazenda São José, em Alto Paraná, no Noroeste do Estado. A fêmea faz parte do criatório da raça marchigiana, dos pecuaristas Homero e José Mascaro Garcia, de Londrina. A sensação se explica pelo fato da bezerra, que ainda não foi nem desmamada, já estar em coleta de embriões para a técnica de transferência.
‘‘A precocidade da novilha deve-se à genética do animal, manejo sanitário e alimentar,’’ explica o veterinário Ernesto Cristovan da Silveira, de Londrina, responsável pela transferência de embriões na fazenda.
De acordo com o veterinário, em outras raças também é possível conseguir precocidade em início de idade reprodutiva, desde que se adote um bom manejo alimentar para o rebanho. A coleta e transferência de embriões possibilita aproveitar a genética e boa condição do animal que numa idade tão jovem (ou até idoso) não suportaria a gestação e o parto.
Aos oito meses ela já produziu quatro embriões viáveis. O número não é recorde. A idade chama a atençãoSangue italiano‘‘Pava’’ também é fruto de transferência de embriões. Sua mãe, ‘‘Dália’’, veio da Itália, através de uma importação feita pelos criadores em 1995. Na primeira coleta de embriões, realizada no início de setembro, produziu cinco estruturas, sendo quatro viávies.
Os embriões foram transplantados para vacas mestiças girolandas que servirão de ‘‘barrigas-de-aluguel’’. Em 40 dias as prenhezes serão confirmadas. No intervalo de 40 dias da primeira coleta, ‘‘Pava’’ voltará a ser superovulada (através de medicamentos), para nova coleta de embriões.
Redução de tempo‘‘A novidade deste caso está no fato de ‘Pava’ ter somente oito meses, enquanto a média de entrada em idade reprodutiva de outras fêmeas acontece por volta dos 16/18 meses’’, explica Silveira. Na média brasileira, novilhas criadas a campo têm a primeira prenhez em torno dos 30 meses de idade. Com genética e técnicas de manejo, inseminação e transferência, procura-se reduzir esse tempo.
Com isso, antes dos 30 meses ‘‘Pava’’, segundo Silveira, já terá ‘‘no mínimo’’, 10 prenhezes, um filho gerado no próprio útero, e mais 10 embriões. Depois de três coletas o recomendado, conforme o veterinário, é emprenhar a fêmea, para estabilizar seus níveis hormonais.
O veterinário Silveira, satisfeito com os resultados da técnica da transferência no rebanhoSilveira faz transferência de embriões em várias raças bovinas há oito anos. Segundo ele, o recorde de seu trabalho, em idade para início de coleta, antes de ‘‘Pava’’, era de fêmeas das raças holandesa e simental aos 12 meses de idade. Existem fêmeas de outras raças que, a exemplo de ‘‘Pava’’, também iniciam cedo sua vida reprodutiva. A adoção da transferência, nesses casos, permite antecipar nascimentos e retorno do investimento por parte dos pecuaristas.
O que mais impressionou o veterinário, no caso de ‘‘Pava’’, foi o primeiro cio, precoce, por volta do quinto mês de idade, e um estado reprodutivo (útero e ovários) adequado já aos oito meses. ‘‘Mesmo os animais considerados precoces são avaliados por volta de 12 meses de idade e ainda se espera mais um pouco para início da coleta’’.
‘‘Pava’’ recebeu medicamentos para superovulação a partir do quarto cio. A decisão de fazer a coleta foi adotada com objetivo de multiplicar rapidamente uma aptidão da própria fêmea, a precocidade, e aproveitar a genética que trazia da mãe, ‘‘Dália’’ e do pai, ‘‘Mirino’’, um touro italiano.
Outra vantagem da transferência é fazer acasalamentos diferentes, a partir de cada coleta, e avaliar geneticamente qual a melhor opção. ‘‘Escolher touros que mais combinam com as fêmeas e conseguir filhos ainda melhores. Além da genética os animais devem ter boa alimentação. Esse manejo inclui uso de mão-de-obra especilizada no trato dos animais e boa condição sanitária do rebanho’’.
O manejo dos animais na fazenda São José é de criação a pasto, além de feno e alfafa. O desmame se dá entre os 9/10 meses de idade. O leite é à vontade, já que as receptoras são ‘‘boas mães’’ (têm boa produção leiteira). No primeiro mês também recebem ração granulada. ‘‘Mas é importante para os bezerros terem uma boa mãe’’, afirma Élcio Donizette Fernandes, funcionário responsável pelo manejo, inseminação e alimentação dos animais.
Como fazerO veterinário garante que, para implantar a transferência no rebanho, não é preciso alto investimento. Basta ter um brete (tronco) de contenção, uma sala para manipulação dos embriões, que pode ser o próprio escritório da propriedade, e é claro, um veterinário especializado na técnica.
Silveira carrega um laboratório ambulante, para executar seu trabalho. Ele alerta que não adianta um animal, como no caso de ‘‘Pava’’, ter toda uma precocidade genética, herdada dos pais, se não receber um manejo alimentar adequado para expor essa precocidade.
‘‘Sangue novo’’Homero Mascaro Garcia é criador da raça marchigiana há 18 anos. Em 1995 a viagem para a Itália trouxe, segundo ele, novo estímulo para a criação da raça. Homero vendeu o antigo rebanho marchigiana (86 vacas no plantel) da fazenda e foi procurar o que chama de ‘‘sangue novo’’ em rebanhos italianos.
Foram 45 dias viajando por aquele País, numa média de visitas a 10 fazendas por dia. ‘‘Queríamos animais especiais, visando precocidade, carcaça e beleza’’, afirma o criador.
O pecuarista comprou quatro vacas e dois touros. Mais tarde, num leilão já no Brasil, adquiriu mais uma vaca do plantel importado. A primeira transferência desse lote de italianas foi feita em dezembro de 1996. Hoje, garante Homero, já são 42 bezerros nascidos a partir da transferência de embriões e mais 35 prenhezes confirmadas no plantel.
‘‘Só vantagens’’Parte dos animais nascidos na propriedade serão destinados à reprodução e participação em exposições. Outra parte irá para os cruzamentos industriais. Com o nelore, segundo o criador, a raça marchigiana no cruzamento tem permitido tirar animais aos 20 meses, com 18 arrobas, para machos, e 16 arrobas, para as fêmeas - totalmente criados a pasto.
O objetivo agora é fazer os superprecoces, através dos cruzamentos, com animais de 16 meses prontos para o abate. Ele enumera as vantagens da raça no cruzamento com o nelore: ‘‘Além dos pêlos brancos, que proporcionam mais resistência ao calor e ao ataque de parasitas, produzem carne mais cedo e de boa qualidade.’’
Animais menoresCom a introdução de ‘‘sangue novo’’, animais de linhagens que não são encontradas no Brasil, a partir da importação de 1995, segundo Homero, é possível ‘‘trabalhar’’ melhor o tamanho do gado marchigiana criado no Brasil. ‘‘Antes o marchigiana era tido como um gado tardio no cruzamento, talvez porque fosse um animal muito grande.’’
A nova tendência, de acordo com o pecuarista, tem sido produzir animais de menor estatura e, portanto, mais precoces, já que têm maior agilidade no andar e no trabalho a pasto e maior conversão alimentar.

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