Benefícios indiretos da floresta
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de setembro de 2000
Kátia Pichelli Especial para Folha Rural 
Um dos importantes serviços prestados pela florestas e pouco percebido é a melhoria da qualidade de vida do homem tanto no campo como nas cidades. Esta melhoria é consequência da conservação dos solos, do controle dos ventos, da redução dos riscos de enchentes, da redução da poluição do ar e da água,do controle biológico das pragas, entre outros. Como valor econômico as florestas geram riquezas que aumentam o PIB nacional com a produção de madeira, chapas, móveis, postes, moirões, papel, casas.
Todos estes benefícios são de difícil valoração monetária, principalmente os que se referem ao bem-estar do homem. Segundo o pesquisador da Embrapa Florestas, Antônio Carpanezzi, além de não se traduzirem em dinheiro, são benefícios geralmente pouco percebidos pelas pessoas, que só passam a dar importância quando se tornam raros e as consequências indesejáveis aparecem.
É o caso da poluição. Somente nas últimas décadas é que criou-se a consciência do quanto a falta de florestas prejudica não só o meio ambiente, mas o próprio homem. Sabe-se que as florestas ajudam a purificar o ar mas, acima de um limite, passam da posição de filtro de poluentes para a de vítimas da poluição. Desta maneira, as árvores apresentam redução de crescimento, dificuldades de reprodução e predisposição a pragas e doenças, completa Carpanezzi.
Sequestro de cabono Um debate que começa a ganhar importância é o sequestro de carbono, por causa do aumento da poluição do ar e do efeito estufa. As florestas seriam as grandes aliadas na captura do carbono, um dos principais responsáveis pelo efeito estufa.
A conservação das florestas ciliares também é outro aspecto pouco valorizado. Os ambientes ciliares são os que ficam nas margens dos rios. A história da agricultura brasileira mostra que, até alguns anos atrás, tudo o que tinha de floresta era cortado para realização de plantios ou pecuária. Com isso as florestas das margens dos rios foram substituídas por estas práticas. Estas ações trouxeram sérias consequências ambientais e econômicas e, atualmente, a maioria das margens dos rios encontra-se sem proteção natural.
Rio sem proteçãoO desbarrancamento das margens dos rios é um dos danos causados; o que acaba assoreando o rio e tornando impraticável sua navegação, além de colaborar para a contaminação da água. O proprietário também perde, pois o barranco que está sendo levado pela água é parte de suas terras.
Outro dano é a fuga de animais e insetos naturais da região, que também exercem o papel de inimigos naturais de pragas das lavouras. Segundo o pesquisador Gustavo Curcio, também da Embrapa Florestas, a recuperação do ambiente ciliar é um trabalho que pode, e deve, ser realizado na maioria das margens dos rios brasileiros. Mais do que uma obrigação da legislação, a recomposição da floresta ciliar deve ser entendida como um benefício ambiental e econômico ao produtor.
O vento As árvores também exercem influência positiva nas propriedades rurais através de quebra-ventos, que são utilizados para proteção de pessoas, cultivos, animais e prédios.
Quando o vento atravessa uma barreira de árvores, sua velocidade perto do solo é diminuída e sua temperatura e umidade também são modificadas. Esta função de quebra-vento evita e erosão eólica dos solos, ou seja, a erosão causada quando partículas de solo são carregadas pelo vento.
Os quebra-ventos também auxiliam na proteção de culturas sensíveis aos ventos frios, pois amenizam temperaturas extremas. Essa proteção não é utilizada somente para as plantações.
O homem também é grande beneficiário, uma vez que a presença de quebra-ventos reduz a quantidade de combustível necessário para aquecimento das casas no inverno e também ameniza o calor no verão.
Qualidade de vida Para a população da cidade, pode parecer técnico, ou rural demais, falar em quebra-vento, floresta ciliar, captura de carbono. Mas cada vez mais ouve-se falar em qualidade de vida e saúde. E neste ponto o meio ambiente, com a floresta inserida, exerce função primordial. Muitas pessoas procuram clínicas de repouso retiradas para fugir do estresse do dia-a-dia. Também é cada vez maior o número de pessoas que trabalham na cidade mas moram em chácaras ao redor das regiões metropolitanas. Mesmo nas cidades, é cada vez maior a procura por terrenos que possuem bosquetes ou se encontram em condomínios que possuem área verde.
Para aqueles que não podem morar nestes locais, existe a opção das caminhadas no meio da mata, da escalada de morros, da pescaria ou mesmo sentar em um parque e aproveitar o silêncio proporcionado pelas árvores. São estes aspectos psicológicos que fazem com que cada vez mais as florestas não sejam somente fonte de recursos econômicos, mas também de recursos humanos.


