Benefícios e riscos da biotecnologia
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de março de 1998
Cristina Côrtes 
Milton DóriaBenefíciosA pesquisadora Eliana Fontes acredita que a biotecnologia pode trazer muitos benefícios a toda sociedadeA biotecnologia tem um grande potencial a ser desenvolvido, mas deve estar voltada para proteger o meio ambiente e melhorar a qualidade de vida, e não estar limitada a tecnologias que visem somente resultados econômicos. A afirmação é da pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos, Eliana Fontes, integrante da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio).
Sobre os riscos e benefícios das novas tecnologias, a pesquisadora diz que sabemos que estas atividades envolvem riscos, mas ao avaliarmos os custos em relação aos benefícios, optamos por assumi-lo. Para contornar e reduzir estes riscos é que se constituiu a Lei de Biossegurança, criada no Brasil em 95. As discussões ainda são muito recentes no País, mas estamos caminhando rapidamente para acompanhar as inovações em biotecnologia, completa.
A pesquisadora abordou estes temas em sua palestra sobre Biosegurança durante o 1º Encontro Paranaense de Biotecnologia Aplicada à Agropecuária realizado em Londrina nos dias 16, 17 e 18 deste mês. O encontro foi organizado pela Embrapa Soja, Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e Universidade Estadual de Londrina.
Imagem negativaOs interesses econômicos de certas pesquisas têm criado uma imagem negativa da biotecnologia junto ao público em geral que ainda não está familiarizado com o tema. Segundo a pesquisadora, as multinacionais, por exemplo, têm investido muito no desenvolvimento de tecnologias para as cashcrops (culturas que dão retorno econômico, como a soja, milho trigo, entre outros), visando a comercialização das sementes e dos produtos para controle de pragas e ervas daninhas.
Existem outras linhas de pequisas que podem trazer um benefício maior, reduzindo o impacto da agricultura no ambiente e melhorando a qualidade de vida das pessoas. Na opinião da pesquisadora, o Brasil deveria investir mais em pesquisas que pudessem beneficiar um número maior de pessoas.
As possibilidades da biotecnologia são infinitas, diz. Por exemplo, nos Estados Unidos estão desenvolvendo uma banana que contém uma vacina contra diárreia, destinada ao consumo de crianças. Poderíamos produzir um arroz com mais vitamina A, um feijão com mais proteína. Enfim melhorarmos a qualidade dos alimentos, visando a melhoria da saúde pública, diz Eliana.
A CNTBio, formada por pesquisadores e dividada em áreas animal, vegetal, saúde e ambiente, tem discutido todas estas questões, e quer ampliar o debate com outros pesquisadores, produtores e com a comunidade em geral.
ImpactosA origem de novas pragas, inclusive plantas daninhas; o efeito negativo de pragas já existentes; a produção de substâncias tóxicas a outros organismos; os danos a espécies não alvo; perturbação de comunidades bióticas; os efeitos adversos a processos dos ecossistemas; e o desperdício de valiosos recursos biológicos são apontados como os principais riscos da biotecnologia.
As modernas tecnologias da engenharia genética são reguladas em vários países, e a principal preocupação diz respeito aos riscos potenciais à conservação e ao uso sustentável da biodiversidade. Toda e qualquer atividade relacionada à transferência, manipulação e uso de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) no Brasil é controlada e deve atender às instruções normativas expedidas pela CNTBio, órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, justamente para contornar estes riscos.
Outra preocupação é com o uso de OGMs em culturas que tem parentesco próximo com plantas invasoras, tais como cana-de-açúcar, arroz, batata, canola girassol, aveia. Para estas culturas, certos de tipos de alterações genéticas poderão criar problemas com a própria cultura. É reconhecido que populações cultivadas e populações silvestres sempre se hibridizam em alguma extensão, mas as possibilidades de trocas de caraterísticas genéticas com os OGMs hoje são muito maiores, explica.
No caso da soja transgênica, a pesquisadora diz que os riscos são mínimos, tanto ambientais quanto para o consumo humano ou animal. A soja é uma espécie exótica, originária da China, e que não tem planta da mesma família que possa sofrer influência do gene modificado, e também não tem fecundação cruzada, explica.
Com relação a saúde humana os riscos referem-se a toxicidade do DNA inserido e do produto dos genes transformantes; inativação de antibióticos e alteração de vias metabólicas; alergias alimentares e transferências de genes de plantas para microorganismos.


