Você pode chupar uma laranja que, sem perder seu sabor, aroma e outras características naturais, contenha um gene que produz antígenos contra doenças, como cólera ou hepatite. Como se estivesse tomando uma vacina.
Isto não é impossível para quem já criou uma planta transgênica com maior resistência ao cancro cítrico. Essas plantas já têm um ano, estão em casas de vegetação do Iapar. O próximo passo é obter autorização da CTNBio, para irem campo.
''Já temos essas plantas mais resistentes ao cancro cítrico, que estão sendo analisadas molecularmente. O cancro cítrico é uma doença política e econômica porque impede o Brasil de exportar as frutas devido às barreiras quarentenárias'', afirma.
Outro projeto em citros é a melhoria de porta-enxertos de citros transgênicos com características agronômicas de alto interesse, como resistência à seca.
Assim, a copa da árvore, que realmente produz os frutos, não será transgênica. Neste caso o fruto não será transgênico, mas apenas a planta que serve como suporte à variedade de laranja comercial. Um gene envolvido na síntese da prolina, que é um aminoácido importante para a resposta ao estresse hídrico, a temperaturas extremas e alta salinidade, está sendo utilizado neste trabalho em cooperação com a Universidade Estadual de Ponta Grossa.
Em café, em que há maior número de projetos com aplicação dos conhecimentos proporcionados pela biotecnologia, um dos genes que estão sendo trabalhados é o ACC oxidade. Este gene está envolvido na maturação, como regulador de crescimento que controla a maturação e senescência da planta.
A maturação do café é desuniforme e, controlando a expressão esse gene, estamos buscando uma planta que tenha uma maturação mais uniforme. Significa: melhor qualidade da bebida, redução da incidência de pragas e doenças e, com isso, redução do uso de agroquímicos.
Um projeto ainda mais avançado é o que identifica os genes envolvidos na produção de açúcares no fruto do café. Isso tem bastante influência sobre a qualidade da bebida. Está sendo conduzido pelo pesquisador Luiz Filipe Protásio Pereira, no convênio Iapar e o CIRAD, da França.
Com o acúmulo diferencial de açúcares no grão do café você consegue selecionar plantas com melhor aroma e sabor - informa Luiz Gonzaga Esteves Vieira. O projeto estuda toda via metabólica para ver como se acumula açúcar na planta e aí vamos selecionar plantas cujo gene é mais expresso ou menos expresso, mas sem necessariamente fazer uma planta transgênica.
Segundo os pesquisadores, alguns desses açúcares estão relacionados com o estresse hídrico ou com a temperatura. Aí a pesquisa estará interferindo também na resistência da planta à baixas temperaturas. Nas condições de clima do Paraná uma diferença de dois graus pode significar uma planta que suporte de geadas mais leves, que são as de maior ocorrência no Estado. A vantagem econômica disso é muito grande.
A pesquisa em biotecnologia não pára aí, ela é muito ampla. Através de marcadores moleculares está sendo feito estudo que podem culminar com mudanças no controle de pragas. Em pulgão de trigo que tem diferentes bióticos e raças, o conhecimento da variabilidade dessas pragas pode definir novos métodos de controle. O emprego da biologia molecular encurta o prazo da pesquisa e propõe métodos mais eficazes e que contemplem preocupação ambiental.
Depois do relato sobre projetos já concluídos, em andamento e os resultados que podem ser obtidos - e ganhos ambientais e econômicos - Luiz Gonzaga Esteves conceitua que a biotecnologia veio para ficar e alerta que não há benefícios que tenham risco zero. Por isso é que a decisão de utilizar qualquer tecnologia deve ser analisada pelos diferentes segmentos da sociedade para avaliar os risco e os benefícios.
Esteves é coordenador do laboratório de Biotecnologia do IAPAR e um dos coordenadores do projeto Genoma Café. Segundo ele, os novos conhecimentos obtidos em biologia molecular e genoma trazem uma profunda modificação na capacidade de interferir nos sistemas de produção predominantes na agricultura. Em biotecnologia, há áreas que vão desde clonagem até a produção de plantas transgênicas. Tudo é relativamente novo e, portanto, considera natural que haja polêmica quanto à sua maior aceitação atualmente.
''O que tem que ficar claro é que ninguém vai pôr o gênio de volta na garrafa. Ninguém consegue ''desinventar'' o que foi inventado. Houve a era da física e da química. Chegou a da biologia, representada pelos avanços da biologia molecular e genômica. Não tem volta. É preciso usar o bom-senso e utilizar esses novos conhecimentos para o benefício da sociedade. (O.P.)

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