A vistosa placa na porteira, na beirinha da PR-454, rodovia que liga Astorga (80 km a oeste de Londrina) a Jaguapitã, chama a atenção de quem passa: ''Sítio Corinthians Paulista'', anuncia. É não é só fachada, o nome do time que tem uma das maiores torcidas - a favor e contra - do país também está na escritura da propriedade de oito alqueires: Sítio Sport Club Corinthians Paulista, diz o documento.
A placa ainda revela mais algumas coisas: ''Estou no cantinho do céu, estou com Deus, estou feliz'', escreveu o dono do sítio. A reportagem da FOLHA RURAL não resistiu e ''invadiu'' o propagado ''cantinho do céu corintiano''. Valeu a pena. Às vésperas do dia do agricultor, encontramos um legítimo homem da terra, com algumas décadas de experiência na lida da lavoura. Detalhe: ele não torce para o Corinthians, mas para o time que estiver ganhando. A paixão pelo alvinegro paulista é de um dos filhos, que acabou ''batizando'' a propriedade.
Gabriel Cardoso dos Santos, 90 anos, mora sozinho na casa de madeira muito bem conservada. Cozinha e lava as próprias roupas. Durante a semana, tem a companhia do radinho, sempre sintonizado nas estações AM. Aos domingos, a casa fica cheia de filhos, netos e amigos. Homem que construiu a vida na lavoura e criou sete filhos com o dinheiro da terra, é bom de prosa barbaridade e dá uma lição de vida atrás da outra, sem perder a simplicidade de caipira.
Nascido em São Joaquim da Barra (SP), ele chegou ao Norte do Paraná nos tempos áureos dos cafezais. Arrendou um pedaço de terra, como meeiro, e plantou 20 mil pés de café. Em nove anos de trabalho na propriedade dos outros, juntou dinheiro para comprar o sítio que tem hoje.
''Sou muito contente por ser agricultor, mas é uma vida castigada, sem tempo para descanso. Para vencer nessa profissão, tem que trabalhar dia e noite. O problema da lavoura é que não é o dono da plantação que põe preço, são os outros'', comenta, sem deixar de sorrir.
O sítio de Gabriel impressiona. Tudo é muito organizado. Cada ferramenta tem o lugar certo para ficar. Parte da propriedade está arrendada para uma roça de milho. Ele cuida da horta de plantas medicinais, da manutenção de cada cantinho e do pasto onde fica a Égua Mugiana, sua companheira de 30 anos. ''Ela é que nem eu: tá velha, mas sabe trabalhar'', diverte-se. Ele garante que o animal vence os oito quilômetros do sítio até Astorga, puxando a charrete, em 20 minutos.
Porém, o grande orgulho do agricultor é o arvoredo, um pequeno bosque que ele mantém pertinho de sua casa. ''As árvores para mim são alegria. Tem gente que fica com dó de perder um pedacinho de terra para elas. Isso é bobagem. Gosto delas. Se alguém conhecer mais de árvores do mato do que eu, dou o sítio de papel passado'', desafia.
Com boa saúde, Gabriel recorda dos tempos em que a região era predominantemente rural. Tudo era mais difícil. Assistência médica praticamente não tinha. Por isso, foi parteiro. Conta que fez mais de cem partos. O último foi há quinze anos. ''Aprendi as coisas da medicina na prática. Cheguei até a tirar a bala de um rapaz que levou um tiro.''
Concluindo a entrevista, ele faz questão de lembrar que seus dois filhos e cinco filhas ajudaram muito na lavoura. ''Eles tinham enxadinhas pequenas e trabalharam comigo, porém fiz todos estudarem. Chegavam a ir em cinco em um cavalo para a escola que eu dei o dinheiro para construir. Hoje, minha família está toda arrumadinha, mas tem uma coisa: sempre fui muito firme, quando falava não, realmente era não''.
Vale dizer também que, no gramado em frente a casa, ele ainda brinca de bola com os netos. Sem se importar com a idade, tenta manter a alma de criança. Garante que é feliz. Também pudera, ele mora no ''cantinho do céu'', o sítio Corinthians Paulista.

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