Beleza exótica, mercado popular
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sexta-feira, 23 de março de 2018
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 

Normalmente associadas à beleza, à sedução e à longevidade, as orquídeas se popularizaram e passaram a ser vendidas até mesmo em supermercados. A facilidade de informação sobre o cultivo fez da flor um dos presentes preferidos para o Dia das Mães e virou uma opção lucrativa mesmo para os pequenos produtores rurais, pela possibilidade de lucro de até R$ 180 mil em um hectare, no segundo ano de cultivo.
As mais de 35 mil espécies encontradas na natureza, além das milhares desenvolvidas em laboratório, tornaram-nas artigos de colecionadores. No entanto, o aumento de renda das famílias brasileiras no período pré-crise econômica levou ao aumento do consumo e ao surgimento do que especialistas chamam de orquídeas comerciais. São plantas com características como rápido crescimento, durabilidade das flores e facilidade de manutenção, que permitem vendas no varejo já a partir de R$ 10 por vaso e maior circulação da produção. Algo que deu origem a um terceiro mercado, o de flores de corte, usadas para decoração em festas e eventos como casamentos.
No Paraná, a produção de orquídeas é a terceira maior dos produtos de floricultura, com 16,3% do total, segundo dados do último relatório do Deral (Departamento de Economia Rural) da Seab (Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento), de 2015. Crisântemos (24,9%) e plantas ornamentais e de jardinagem (21,5%) estão à frente. O VBP (Valor Bruto de Produção) de todas as plantas ornamentais somou R$ 115,2 milhões naquele ano, apenas 0,2% do total do Estado.
Por cidade, Maripá, no Oeste paranaense, entrega quase a metade das orquídeas produzidos no Estado, com 46,0%. Também têm boa participação os municípios de Guaíra (12,7%), da mesma região, Tamarana (6,4%) e Marialva (6,4%), no Norte e Norte-Central, respectivamente. Porém, independentemente do clima, há espaço para crescimento, principalmente para o plantio em estufas.

ESCALA E RENDA
Nesse cenário, o Departamento de Agronomia da UEL (Universidade Estadual de Londrina) trouxe à região, entre a última terça (20) e sexta-feira (23), o 3º Simpósio Brasileiro sobre Cultivo de Orquídeas, com o tema "A Indústria da Orquídea". O evento buscou a troca de informações entre pesquisadores e agentes de mercado, com palestras, cursos e painéis que debateram desde técnicas de cultivo e multiplicação às possibilidades comerciais. A realização foi em parceria com a Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Jaboticabal e a UFCE (Universidade Federal do Ceará), que sediaram as edições anteriores.
O presidente do simpósio, professor da UEL Ricardo Faria, afirma que as novas técnicas de produção industrial e em laboratórios, com vendas em supermercados, popularizaram a orquídea e criaram novos mercados para o produtor. "Antigamente estavam mais na mãos de colecionadores porque não era esse processo de multiplicação tão comum. Com mais oferta, o preço também cai."
Palestrante e produtora de orquídeas em Itápolis (SP), Cibele Mantovani afirma que, na pior das hipóteses, uma família consegue tirar R$ 60 mil a partir do segundo ano de produção. Na melhor, diz, o lucro chega a R$ 180 mil. "Posso afirmar que nenhuma atividade agrícola legalizada, em pequena área, de cultivo intensivo e com uso mão de obra todos os dias, produz tanta renda", diz.
Doutoranda em agronomia na Unesp de Jaboticabal, ela afirma que estuda a viabilidade econômica da flor desde a graduação e que conhece o resultado na prática. A pesquisadora é sócia-proprietária do Orquidário Mantovani, que tem perto de 3 mil metros quadrados e é de agricultura familiar, com somente um funcionário fixo. "Os grandes produtores de Holambra (SP) têm 20 hectares de área coberta, climatizada, com temperatura e umidade controladas e produzem plantas para um tipo de mercado de consumo, que são orquídeas de variedades selecionadas, de crescimento rápido", diz. "Não temos esse foco. Atuamos no mercado do cultivo, do colecionador, e não trabalhamos com quantidade, mas com qualidade, plantas diferenciadas que têm um valor agregado maior", completa Mantovani.

Uma pessoa por hectare
A produtora de orquídeas Cibele Mantovani afirma que uma pessoa consegue cuidar de um hectare cultivado com a flor, dentro de uma estufa, que permite mais controle da temperatura e menos risco de doenças. "Somente para para formar um lote de mudas homogêneo é preciso contratar uma mão de obra terceirizada, para instalar essas mudas na área de produção, porque têm de florescer na mesma época", explica.
Ela conta que oito terceirizados podem plantar 48 mil mudas em 24 dias, o que permite, por exemplo, direcionar o florescimento para o período anterior ao Dia das Mães. "O plantio é rápido e depois só precisa de mão de obra fixa para monitorar a adubação, a irrigação, os tratos culturais, se tem pragas ou doenças, e isso uma pessoa dá conta em um hectare", sugere Mantovani.
O consultor e engenheiro agrônomo Sergio Yanagisawa, de Mogi das Cruzes (SP), afirma que há um boom comercial das orquídeas. Também palestrante do simpósio da UEL, ele diz que avanços tecnológicos permitem uma produtividade maior em menores espaço e tempo, algo já disseminado em referências como Estados Unidos, Holanda e Taiwan. Dentro de estufas, conta que é preciso controlar tudo, seja luminosidade, temperatura, umidade ou adubação. "Aqui, é algo que entra mais nas grandes culturas, mas é uma tendência."
Yanagisawa afirma que a produção e o consumo devem crescer nos próximos anos, mas sugere aos pequenos produtores que estudem a viabilidade de mercado. "No Estado de São Paulo, a competitividade é muito grande, mas pode não ser assim no Paraná", diz. "Mas a tendência é regionalizar a produção", completa.


