‘Bebida mole’: quando o esforço é premiado
A história da família Rosa mostra que uma nova mentalidade na agricultura familiar pode tornar o Paraná uma potência na produção de café especial
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de dezembro de 2025
A história da família Rosa mostra que uma nova mentalidade na agricultura familiar pode tornar o Paraná uma potência na produção de café especial
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

Aos poucos, o casal Walter Rosa Neto e Flávia Guimarães da Silva Rosa vai assimilando uma ideia que poderia mudar o grau de desenvolvimento da cafeicultura paranaense, uma atividade que ainda faz parte da rotina de 8 mil famílias no Estado.
Com coragem e disciplina, os dois apucaranenses do distrito de Pirapó colocaram o consumidor final na mira e passaram a buscar também a qualidade nas colheitas, rompendo um hábito ancestral de se preocupar apenas com o volume de cada safra e de destinar toda a produção aos intermediários.
E esta é uma história de livre iniciativa e de esforço próprio, sem o apoio direto de associações ou cooperativas. É um café que não está na rota turística e que eles nem sabem dizer se vai se beneficiar com o novo status da região, que ostenta a partir deste ano a Indicação Geográfica (IG) Café de Mandaguari, que além deste município abrange também Apucarana, Arapongas, Cambira, Jandaia do Sul e Marialva.
É possível que os laços com todos os aparatos disponíveis de desenvolvimento da cafeicultura se fortaleçam num futuro próximo, mas a intuição de uma mãe grávida, com dois pequenos para cuidar, é o ponto inicial desta transformação, iniciada em 2019.
“Não podia ajudar na lida e pensei que poderia aumentar nossa renda com a venda do café torrado e moído, que a gente já produzia para a família e para algumas pessoas mais próximas”, conta Flávia, que partiu atrás da papelada para regularizar a venda e participar da feira do produtor local nas manhãs de domingo.
A experiência como comerciante mudou sua visão sobre a própria lavoura e os horizontes da família. Então, o casal dividiu as tarefas. Enquanto ele se dedicava ao cultivo, à administração do negócio e à gestão financeira, ela se empenhou em desenvolver uma marca e a seleção de lotes só com grãos maduros em perfeito estado, a base da “bebida mole”, um café doce, suave e agradável que tem um valor bem mais alto de mercado.
Flávia nasceu “debaixo de um pé de café” no começo dos anos 1990, quando seu pai ainda ganhava a vida como porcenteiro, plantando e colhendo em terras que não eram suas em outro distrito, Caixa de São Pedro. A vida mudaria com uma geada das grandes, que os levou a viver na sede do distrito. Praticamente da mesma idade, Walter também cresceu ligado diretamente aos cafezais - o pai e o avô também eram porcenteiros. Ambos se conheceram na escola, se aproximaram, namoraram e casaram. A esta altura, a família de Walter já tinha um pedaço de terra e eles passaram a viver na Chácara Rosa, uma propriedade de seis hectares, quatro deles cafezal.
“Nossos antepassados tinham aquela cultura de pensar muito no volume, na produtividade, de colher o máximo possível em uma área pequena para ter uma renda melhor”, conta. “A qualidade não era importante porque a remuneração era a mesma”, conta Flávia.
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Agora, a agricultora é figura conhecida no Espaço das Feiras, um pavilhão coberto nas imediações da área central de Apucarana, onde 1.300 metros quadrados confinam os interesses dos moradores urbanos e da agricultura familiar. Nas manhãs de domingo, Flávia leva a prole - Raquel, 9 anos, Isaque, 7 e Rebeca, 6 - para ver o movimento enquanto tenta vender seu produto, cuja embalagem figura o sobrenome da família.
Nos primeiros anos como comerciante, ela percebeu que podia ir além da “bebida dura”, como se diz do café feito com todos os tipos de frutos. “Mas para chegar à bebida mole é preciso um esforço enorme e não conseguia tempo. No ano passado, consegui formar um lote com frutos tardios e decidi participar das competições para ter um parâmetro.”
A primeira incursão no universo dos concursos “deu bom”. No ano passado, ela ficou em terceiro lugar na categoria natural do Café Qualidade Paraná, prêmio entregue na capital pela Câmara Setorial do Café do Paraná, formada pela Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, do Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR), Sistema Faep e Associação dos Engenheiros Agrônomos de Londrina. A premiação é a terceira maior do gênero no Brasil. “A partir daí tive certeza que buscar a qualidade era o caminho certo”, afirma Flávia, mais uma estrela da bancada feminina que domina a produção de café de qualidade no Estado.
Nas últimas semanas, o café de Apucarana virou o centro das atenções da agricultura paranaense quando Flávia subiu ao ponto mais alto do pódio no mesmo concurso. “Quase infartei”, brinca a filha de porcenteiro que honra as tradições de um município que é o quinto maior produtor do Estado, com 2,3 mil toneladas colhidas e com mais de 1.300 hectares de plantação.
Por enquanto, a rotina dos Rosa segue austera, à base de muita transpiração. Afinal, Walter toma conta de 70 mil pés de café das variedades IPR 100 e IPR 106, arábicas resistentes a nematoides (vermes que ameaçam o cafeeiro). A lavoura ocupa hoje 14 hectares - a mãe arrendou outros dez hectares - e é tocada por poucos ajudantes. A colhedora alugada pela Cooperativa dos Cafeicultores de Pirapó (Coocapi) é um dos poucos luxos. “Vamos plantar mais um hectare”, avisa Walter. No box da feira, os domingos estão mais esperançosos, com o café especial exposto com orgulho. Meio quilo do melhor café do Paraná vale exatamente uma nota de R$50,00. Quem vai dizer que é caro?




