Jota Oliveira
A redução de 7% sobre o volume do mês anterior, nas exportações de grãos e farelo de soja, baixou em 30% a receita cambial brasileira no mês de novembro, quando a balança comercial registrou déficit de US$529 milhões. O peso dos produtos agropecuários nas exportações explica o empenho do Brasil e de outros países exportadores de alimentos em derrubar as barreiras de todo tipo que as nações mais desenvolvidas impõem aos produtos do Terceiro Mundo. Parece que eles raciocinam assim: ‘‘vocês produzem comida, nós compramos e pagamos quanto quisermos, porque somos os compradores ricos e, além disso, temos nossos próprios alimentos.’’
Raciocínio simplista, porém serve para entender porque não se chega a um entendimento nas rodadas da Organização Mundial do Comércio (OMC) a respeito das exportações. De um lado, os países ricos subsidiam fortemente seus próprios lavradores e pecuaristas; de outro os países pobres ou ‘‘em vias de desenvolvimento’’ (entenda-se como uma sociedade pré-industrial, situação vivida agora pelo Brasil, que se divide entre o campo e a indústria) tentam romper obstáculos.
Na primeira posição, além de Estados Unidos, Canadá e Japão, está a Europa, que pode ter dado um golpe definitivo nas pretensões das nações do mundo pobre: na 3ª Conferência Ministerial da OMC em Seattle, os europeus insistem em manter os privilégios concedidos a seus produtores, acenando apenas com obscuras ‘‘substanciais reduções progressivas dos subdísios à agricultura’’. E, conforme observações feitas por representantes brasileiros, os Estados Unidos estavam, no meio da semana, propensos a aceitar a posição européia. Até quarta-feira, os americanos manifestavam-se favoravelmente ao Grupo de Cairns, formado por dezoito países agrícolas (entre eles o Brasil) que exigem o fim dos subsídios.
Estão ocorrendo avanços e retrocessos a todo instante, na reunião da OMC, mas por enquanto a balança parece baixar para o lado das nações desenvolvidas. Esta situação pode afetar o desequilíbrio, anotado mais uma vez em Roma, no final do mês passado, na conferência da FAO sobre a alimentação no mundo: ‘‘a fome diminui, mas desigualmente.’’ Nos cinco primeiros anos do decênio de 1990, o número de pessoas desnutridas nos países em desenvolvimento diminuiu de 830 para 790 milhões, mas na soma de 37 desses países a redução chegou a 100 milhões, principalmente na Índia e na China. Em 59 países a população desnutrida aumentou em 60 milhões de pessoas.
Os delegados à reunião da FAO concluíram que o índice atual de resultados positivos na luta contra a fome, não basta para alcançar os objetivos fixados na reunião mundial sobre alimentação, de 1996: reduzir à metade a fome no mundo até 2015. Para alcançar esse objetivo, seria necessário aumentar o ritmo da redução média de 20 milhões de pessoas, na fome em todo o mundo. Porém, se os países produtores de alimentos não conseguem desenvolver-se devido às barreiras impostas pelas nações mais abastadas e não famintas, podem acabar fazendo uma agricultura de subsistência, sem sobras para atender as necessidades dos povos famintos.
O autor é editor da Folha Rural.

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