Existem várias Londrinas! Sim, várias Londrinas! Tem aquela dos pioneiros dos “pés vermelhos”, das ruas cobertas de lama com casas feitas de madeira nobre; tem aquela dos primeiros bairros com asfaltamento e casas em alvenaria ...cujos terrenos hoje fazem inveja aos novos loteamentos; tem a dos pequenos arranha-céus centrais; tem aquela um pouco distante, a dos bairros-dormitórios e dos distritos; tem a nova com seus prédios imponentes e envidraçados – verdadeiras obras da arquitetura e engenharia moderna.

Em muitas destas “londrinas” ainda podemos encontrar pequenos comércios que passam de geração para geração! Basta andar pelas ruas centrais e vilas e verificar as pequenas fachadas anunciando o serviço a ser prestado: sapatarias, farmácias, lojas de parafusos, selarias, bares, restaurantes, hotéis, lojas de tecidos... - não me refiro às grandes marcas nacionais e sim àquelas que aqui foram fundadas e são remanescentes.

Em algumas delas encontramos os mesmos utensílios, máquinas e movelaria de decoração utilizados há décadas! E o que dizer de alguns funcionários e donos que neles trabalham até hoje?

Tive a grata felicidade de fazer parte de um destes negócios de família! Na década de 1970, meus pais compraram uma “venda” (misto de bar e mercearia) cujos dois donos anteriores abriram mão de prosseguir com o negócio. Chamava-se Bar do Ponto – o nome é justificado pela sua função social: no bairro, ainda sem asfalto, os ônibus que vinham do centro da cidade faziam sua parada em frente a ele! Ali os passageiros desciam e muitos já aproveitavam para levar algum item de mercearia para suas casas ou simplesmente tomar uma cachacinha para rebater a poeira e o cansaço do dia de trabalho! Nele vendia-se de tudo: pasta de dente, lâminas de barbear, sabonetes, enlatados, leite, pão, doces, facas, mortadela... um verdadeiro “secos e molhados”!

Para embalar as mercadorias havia um tipo de papel grosso e os famosos sacos de papel com o logotipo do comércio com o aviso: “entregas a domicílio”! Vez ou outra a velha bicicleta de carga fazia sua função comercial além de nos divertir!

Sucesso mesmo eram as famosas “pingas temperadas” preparadas por meu pai: com canela, açafrão, imburana, carquejo, groselha... e o famoso rabo-de-galo!

Em dias de jogo de futebol no campo de terra batida em frente à igreja, o bar lotava de gente – alegria do “Zé do Bar”! Quando chovia os que ali chegavam com os pés cheios de barro dispunham de um “raspador” para aliviar a carga! De vez em quando era preciso ir com uma enxada retirar o excesso acumulado! Que vida!

Que saudades das tardes de domingo onde os “clientes” chegavam para tomar umas e jogar sinuca – até que esposas ou filhos vinham para chamá-los para o almoço. Quantas histórias ainda por contar sobre o velho Bar do Ponto!

Valdinei Franco, professor e leitor da FOLHA.

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