Baixo desfrute revela ineficiência
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 1997
Elvira Fantin Sucursal de Curitiba 
Dorico da SilvaO maior...Embora tenha o maior rebanho comercial do mundo, o Brasil não é o maior produtor de carneO Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo, com 155 milhões de cabeças. O número de animais só é maior na Índia, onde o plantel chega a 280 milhões de cabeças, mas naquele país o bovino, considerado um animal sagrado, não é abatido para consumo.
Apesar de líder no número de animais, o Brasil sofre pela baixa produtividade do rebanho: a taxa de desfrute, que mede a relação entre o total do plantel e o abate, é de apenas 16%. Isto significa que, em um plantel de 100 animais, apenas 16 são abatidos por ano.
CausasDe acordo com dados do Sindicato da Indústria da Carne do Paraná (Sindicarne), a Itália é o país onde a taxa de desfrute é maior, chegando a 77%. Isto significa que os pecuaristas italianos estão mandando os animais para o abate com apenas um ano e meio de idade, enquanto aqui os animais são abatidos com quatro anos ou mais, compara Gustavo Fanaya, consultor econômico do Sindicarne. Segundo ele, em outros países da Europa a taxa de desfrute é, em média, de 40%. Nos Estados Unidos é de 35% e, na Argentina, de 23%.
A baixa taxa de desfrute do Brasil revela a ineficiência da nossa pecuária, comenta Péricles Salazar, diretor executivo do Sindicarne. Segundo ele, só a somatória de quatro fatores pode dar eficiência ao setor: genética, nutrição, sanidade e manejo.
Para Salazar, o baixo poder aquisitivo da população, no entanto, desestimula investimentos na pecuária. Se o pecuarista passar a investir em tecnologia de produção, o custo vai subir e ele não vai mais poder vender o boi a R$ 22,00 a arroba como vende hoje. Em consequência, o frigorífico terá que repassar o aumento de preço, o que refletirá num aumento de preço para o consumidor, podendo retrair o consumo, prevê.
Apesar disso, é consenso entre as lideranças do setor que investimentos são necessários para elevar a eficiência e, em consequência, a qualidade do produto final e a rentabilidade do pecuarista. O problema é que no Brasil convivem a pecuária de primeiro mundo e a de terceiro mundo, observa Salazar. Ele comenta que, embora haja um grupo de pecuaristas que investe pesado em tecnologia, há outro que simplesmente deixa o gado no pasto, sem se preocupar com ganho de peso e sanidade.
No Brasil predomina a criação extensiva, onde o gado fica solto no pasto, comendo grama, conta o diretor do Sindicarne. Segundo ele, a criação intensiva, onde o animal é criado confinado e se alimentando com ração, é quase insignificante no País.
Novilho precoceSalazar observa que a criação do programa Novilho Precoce é um primeiro passo para a melhoria da pecuária de corte. Através do programa, o pecuarista recebe uma espécie de prêmio no valor correspondente a 50% do ICMS, se entregar ao frigorífico um animal classificado como novilho precoce. É considerado novilho precoce o animal que vai para o abate com cerca de 18 meses de idade e peso de 17 arrobas.
Um animal com estas características atinge o preço de mercado de R$ 382,50. Sete por cento deste valor, o que equivale a R$ 26,77, corresponde ao ICMS. Como se trata de novilho precoce, 50% deste valor são destinados ao Governo e os outros 50% ao produtor. Para o animal não classificado como precoce, os 7% do ICMS vão diretamente para o Governo.
Além deste programa, os líderes do setor consideram importante a tipificação de carcaça, que é o pagamento de acordo com a qualidade da carcaça. Hoje, se um pecuarista entrega um animal com maior ou menor teor de gordura, ele recebe o mesmo preço e isto é injusto, opina Gustavo Fanaya. Segundo ele, a tipificação de carcaça já é praticada nos países onde a pecuária é mais avançada, como a Argentina e os Estados Unidos.


