fotos: Carlos AlmeidaA cana chega à Usiban, que produz 350 mil litros de álcool e 10 mil sacas de açúcar por diaÉ o bagaço que produz vapor para ferver e fermentar o álcool, que produz energia elétrica para funcionar a maquinaria; que pode ser o substituto do óleo combustível; que produz adubo para novas safras; forração de proteção ao solo e até complemento de ração animal. Para o lixo não sobra nada.
A historia da utilização do bagaço da cana na produção de vapor, segundo o chefe do Departamento de Manutenção Industrial da Usina Bandeirantes (Usiban), engenheiro João Guim Filho, é tão antiga quanto a história da moagem de cana. ‘‘Um dia alguém teve a idéia de moer a cana para aproveitar o caldo, e em seguida queimou o bagaço, para evitar moscas. Com a propulsão do fogo, descobriu-se ali um ótimo combustor’’. Hoje as destilarias de álcool não dispõem do bagaço para nada.
ÚtilAs usinas de açúcar e álcool produzem por dia grande quantidade de bagaço, um
‘‘resto’’ de muitas utilidades
A Usina de Álcool de Bandeirantes (37 quilômetros a leste de Cornélio Procópio), por exemplo, utiliza uma média de 100 toneladas de bagaço por hora, o que gera 240 toneladas de vapor/hora. A energia consumida pela usina é de 4 mil quilowats/hora. A Usiban produz 350 mil litros de álcool e 10 mil sacas de açúcar por dia. Isso acumula 70 mil toneladas de bagaço por mês. ‘‘Noventa por cento deste bagaço é consumido em geração de vapor. O restante é vendido ou aproveitado em outros departamentos’’, explica Guim.
Segundo ele, uma tonelada de cana gera 250 quilos de bagaço. Uma tonelada de bagaço produz 2,4 toneladas de vapor. ‘‘O bagaço não aproveitado pela usina é vendido a R$4,00 a tonelada’’, acrescentou o engenheiro.
O processo de preparo do bagaço para o vapor consiste em passar por seis ternos de moendas e através de gravidade cai da esteira para as caldeiras, que já estão em combustão. ‘‘A geração deste vapor é capaz de rodar maquinaria e turbinas, acionar moendas, bombas de alimentos de caldeira e turbos geradores de energia elétrica’’, esclareceu o engenheiro. O uso do bagaço como fonte de energia tem sido proposto com a queima direta, gaseificação ou pirólise para a produção de óleo.
CombustívelAs empresas que mais procuram o bagaço da cana como combustível, são as indústrias de alimentos, minerais não-metálicos (cerâmica estrutural), papel e celulose, e têxtil. Nestes casos o bagaço é utilizado com função térmica. O bagaço é rico em matéria volátil (87%) e mais barato que o óleo. Os tecidos do bagaço têm os mesmos componentes principais da madeira, variando em proporções. Valores médios de análise do bagaço seco, de acordo com pesquisas do Centro de Tecnologia da Copersucar, indicam cerca de 50% de celulose, 24% de hemicelulose, 24% de lignina e 2% de cinzas. As velocidades destas reações são determinantes no projeto de sistema eficiente de combustão.
Engenheiro João Guim Filho: a história do uso do bagaço começa com a moagem da cana
RaçãoO engenheiro Guim explica que, na fabricação de ração, o bagaço pode ser utilizado para aumentar a digestibilidade ou pode ser utilizado como componente volumoso. ‘‘Só que não pode ser consumido ‘in natura’ pelo gado. É simplesmente um complemento da ração’’, afirma. O processo para transformar o bagaço em fornecedor de calorias na ração, segundo Guim, se baseia no tratamento do bagaço por vapor, em condições estabelecidas de pressão e temperatura. Antes porém, o bagaço passa por seis moendas de trituração.
ForraçãoAs culturas perenes como figo, alfafa e uva são as que mais aproveitam o bagaço. Incorporado na terra, ele retém umidade e protege o solo. ‘‘Por ter uma degradação lenta, é passível de fermentação, o que propicia bactérias para composição química do solo’’, explica Guim. Segundo ele, o bagaço não é nutriente, mas sim protetor da terra. Para a uva, por exemplo, o bagaço retém a água e atrasa o processo de evaporação, o que dá ao fruto maior suculência.
Cama para gado e frango Nada melhor do que o bagaço de cana como cama, para bovinos e frangos não se sujarem quando deitam. O bagaço triturado, segundo Guim, não incomoda os animais e absorve o calor. Para este uso, o bagaço precisa ter sua umidade reduzida para cerca de 10%.
Aglomerados e chapasExistem estudos para que o bagaço substitua a madeira na indústria de aglomerados. Entretanto, apesar do elevado potencial teórico, as possibilidades de penetração no mercado a curto e médio prazos ainda são reduzidas. Atualmente o mercado é caracterizado por excesso de oferta de madeira. O uso de bagaço implicaria novos equipamentos, novas tecnologias e elevados investimentos que, segundo pesquisas da Copersucar, não se justificam em face do alto nível de ociosidade do setor (30%). ‘‘Seria um grande avanço e conquista ecológica’’, completou o engenheiro da Usiban.

mockup