Avicultura teme racionamento de energia
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sexta-feira, 25 de maio de 2001
Carolina Avansini De Londrina 
A possibilidade do Paraná integrar o programa de racionamento de energia lançado pelo Governo Federal, que pretende reduzir o consumo em 20%, está preocupando os integrantes da cadeia produtiva do frango no Estado. Apesar da Região Sul estar fora do racionamento, pois ainda produz mais energia do que consome, o setor da avicultura teme ser prejudicado por mudanças nesse contexto.
De acordo com Ícaro Fiechter, diretor executivo da Associação dos Abatedouros e Produtores Avícolas do Paraná (Avipar), os incubatórios e abatedouros são os maiores consumidores de energia elétrica dentro do processo produtivo. Nas granjas, o consumo é menor, mas extremamente necessário para garantir os programas de iluminação dos aviários, que orientam para a manutenção das luzes acesas durante a noite para que os animais continuem se alimentando.
ProduçãoMaior produtor de frangos do Brasil, o Paraná coloca 1,2 milhão de toneladas de carne por ano no mercado, que rendem aproximadamente R$ 3 bilhões. Esse volume é obtido a partir do consumo mínimo de R$ 300 milhões mensais de energia, informou Fiechter. Segundo ele, o único meio possível de economizar é reduzir o número de abates, o que resultaria em queda de produtividade e prejuízos para todos os envolvidos na cadeia. Cinquenta e quatro milhões de aves são abatidas no Paraná mensalmente, em 32 abatedouros que envolvem seis mil famílias de avicultores, informou o representante da Avipar.
Energia necessáriaNa incubadora, onde são chocados os ovos, a temperatura deve ser mantida em 37 graus durante as 24 horas do dia, não dá para desligarmos os equipamentos, disse, acrescentando que nessa etapa os gastos com energia representam 6% do custo total.
Nos abatedouros, ele informou que o consumo pode representar até 10% do orçamento total. Não tem como economizar no processo de industrialização, pois os frangos prontos para o abate não podem ficar esperando. O processo acontece em várias etapas interligadas e a interrupção de uma delas prejudica as outras, explicou.
As câmaras frias utilizadas para conservar a carne também não podem ser desligadas. Elas funcionam 24 horas. A única forma de reduzir gastos seria comprar equipamentos que consomem menos energia, mas isso demanda muito investimento, não é viável. O que se pode fazer é atentar para a manutenção dos equipamentos, avaliou.
No abatedouroSérgio Dalagassa, gerente geral da União Agro Ara, de Araucária (Região Metropolitana de Curitiba), também teme o possível racionamento. Normalmente, já procuramos economizar energia ao máximo, inclusive por questões financeiras, pois o frango não proporciona altas margens de lucros, comentou.
Para ele, a única forma de reduzir ainda mais o consumo a curto prazo seria diminuir a quantidade de abates. Mesmo assim as câmaras frias não poderiam ser desligadas, questionou. Para produzir 39,5 toneladas de carne por dia, a empresa consome uma média de 90.403 quilowatts de energia por mês, que resultam em uma conta de aproximadamente R$ 14 mil.
Na granjaOs criadores também demonstram preocupação com a possibilidade de apagão. O avicultor Antônio Paulo Nonis, de Arapongas (37 km a oeste de Londrina), explicou que o sistema de exaustores e nebulirizadores, responsáveis por manter a circulação do ar e evitar o superaquecimento, são movidos a energia elétrica. Se eles pararem de funcionar quando os frangos já estiverem grandes, corro o risco de perder até 50% do lote, acredita.
Outro problema é a interrupção dos programas de iluminação. Segundo o pesquisador Paulo Abreu, da Embrapa Suínos e Aves, os avicultores costumam utilizar luz durante 24 horas por dia, para permitir alimentação contínua dos animais. Diante da possibilidade de apagões, ele recomenda manter a iluminação constante nos três primeiros dias de vida e após esse período, manter uma hora diária de escuridão. É para as aves se acostumarem com a falta de luz. Sem essa adaptação, elas se assustam e acabam se machucando.
InvernoNo inverno, a instalação de sistemas de aquecimento nos aviários é fundamental para evitar a proliferação da ascite, caracterizada pelo crescimento da barriga das aves. Submetidas a variações bruscas de temperatura, elas também gastam mais energia para adaptar o organismo às mudanças e param de engordar, causando prejuízos ao produtor.
Diante da necessidade de economizar energia, a utilização de aquecedores elétricos é uma solução que deve ser descartada. O pesquisador Paulo Abreu recomenda a utilização das campânulas a gás para manter as condições adequadas no interior do galpão.
Segundo ele, os equipamentos a gás apresentam o problema de lançarem gases tóxicos no ambiente, além de oferecerem riscos de explosão e serem de difícil controle da temperatura. Não é perfeito, mas atualmente constitui a melhor opção, analisou.
O pesquisador Valdir Ávila, também da Embrapa Suínos e Aves, complementa que a temperatura ambiente recomendada para os pintos é de 32 graus nos primeiros três dias de idade. Após essa data, ele orienta manter a temperatura de 28 graus até os 7 dias, diminuindo para 26 aos 14 dias e 24 a partir dos 21 dias. Outra prática adotada é a confecção de círculos de proteção, que devem ser abertos na medida em que os pintinhos crescem. Os círculos devem ser retirados entre o 8º e o 20º dia.
Experiência O avicultor Antônio Lucio Nonis utiliza 36 aquecedores automáticos a gás e três aquecedores a lenha para manter a temperatura de três galpões que abrigam um total de 40 mil aves.
Ele contou que costumava usar 120 aparelhos a gás, mas resolveu substituir uma parte pelo similar movido à carvão para reduzir custos. Gastaria R$ 1.900,00 em botijões de gás, se utilizasse os 120 aquecedores. Hoje, gasto apenas R$ 600,00, comentou. Segundo o pesquisador Paulo Abreu, os equipamentos a lenha não são recomendáveis porque lançam muitos gases poluentes na atmosfera.
Outra técnica utilizada por Nonis para garantir o conforto ambiental é o cultivo de pés de uva japonesa ao redor dos galpões. Durante o verão, elas fazem sombra e refrescam o aviário. No inverno, perdem as folhas e permitem a incidência do sol, ensinou.


