Avicultor terá de ser especialista em comportamento animal
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sexta-feira, 31 de agosto de 2018
Victor Lopes <br> Reportagem Local 

A representatividade da avicultura no cenário da proteína animal nacional é indiscutível e, junto à evolução tecnológica que se percebe dentro dos aviários, está a pressão do consumidor, que quer saber absolutamente todas as informações sobre o que está comprando. A preocupação - principalmente de países importadores - está ligado ao bem-estar das aves e à seguridade alimentar como um todo, ou seja, o quão esse produto é seguro para consumo.
Além dos parâmetros mais tradicionais, como densidade de quilos por metro quadrado, umidade relativa do ar, período de luz, concentração de amônia, fim de gaiolas para aves de postura, entre outros, existem novas situações que estão sendo debatidas, e que mudarão consideravelmente o manejo dentro dos aviários e a forma que o produtor irá pensar a produção e o bem-estar.
O pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Everton Krabbe, relata que um dos pontos muito discutidos mundialmente é a redução no uso de antibióticos, que são utilizados como promotores de crescimento e melhoradores de desempenho zootécnico. "É a principal discussão e os EUA entraram muito forte nisso. Já se fala que 50% da produção americana está totalmente livre de antibióticos. Isso nos força de um dia para o outro a ir no mesmo sentido. Muitas grandes empresas aqui já estão trabalhando em unidades e linhas de abate de forma isenta dessas moléculas."
A grande questão é que para deixar essas moléculas, será necessário adotar medidas de compensação. "Esse processo precisa ser gradativo. Um dos pontos é com a nutrição, ajustando as dietas, compensação de vitaminas, redução de proteínas e melhoria da qualidade da matéria-prima. Tudo que não é digerido se torna um meio dos organismos se proliferarem e haverá mais problemas sanitários no lote."
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Outro ponto é o uso de aditivos - fundamentais com o encerramento dos antibióticos - como os probióticos (bactérias vivas que criam um ambiente saudável no sistema digestivo e competem com as bactérias ruins), prebióticos (compostos que alimentam os probióticos) e uso de enzimas para auxiliar no ajuste da digestibilidade dos ingredientes que compõem a ração. "Tudo isso impacta na conversão alimentar, ganho de peso, ou seja, na forma que o produtor é remunerado."
Tais mudanças no manejo, segundo Krabbe, também geram um aumento na utilização de vacinas. Como isso fará que haja maior excreção de agentes dessas vacinas na cama e a qualidade dela deverá ser muito bem controlada. "Passaremos de camas completamente secas - como o produtor busca - para situações em que será necessário ter uma temperatura e umidade relativa mínima. Ou seja, camas demasiadamente úmidas causam doenças nos animais, mas camas secas afetam a eficiência dos programas de vacinação."
Essa mudança de paradigmas, com o fim dos antibióticos, também fará com que o produtor reduza a densidade de aves por metro quadrado - chegando a 20% menos animais - e melhorar ainda mais a questão da ambiência, com a renovação de ar dentro do galpão, por exemplo. Tudo isso auxilia no bem-estar nos animais. "O produtor vai ter de abrir a cabeça, olhar coisas que ele não enxergava ou olhava de forma superficial. Prestar atenção na cama, teor de umidade dela. Vejo no avicultor do futuro um especialista em cama, em comportamento animal... Ele não vai trabalhar mais, mas sim de forma diferente."


